Redefinindo a esquerda

Em meados do século XX prevalecia a crença de que a humanidade evoluiria em direção ao predomínio do comunismo ou modalidades de socialismo. Agora, em pleno novo milênio, percebemos o quanto essa previsão contrasta com a realidade.

Após atemorizar o establishment das nações capitalistas, o comunismo desmoronou na União Soviética e outros países da Europa Oriental, enquanto os antes poderosos partidos comunistas da Europa Ocidental foram quase dizimados e o apelo do socialismo nos países em desenvolvimento empalideceu. Apesar de formalmente comunistas, China e Vietnã tornaram-se paraísos da iniciativa privada. Os remanescentes regimes comunistas empedernidos, como o da Coreia do Norte, simbolizam o que há de politicamente grotesco e maléfico.

No caso da América Latina, Cuba desiludiu os que a encaravam como modelo a ser seguido. O pretenso socialismo reinante na Venezuela se restringe ao autoritarismo bagunçado indutor do caos social e econômico. No Brasil e Argentina, os então autoclassificados como governos de esquerda, comandados pelo PT e Partido Peronista, provocaram danos cuja superação demandará longo prazo.

Como decorrência dos fatos apontados surgiu, principalmente na América Latina, um espaço vazio no cenário partidário conduzindo à orfandade política os eleitores discordantes do pensamento de direita. Sem opções compatíveis com seus anseios ideológicos, esses eleitores acabam votando no “menos pior” ou se abstendo. Tal situação evidencia a urgência histórica em ocupar o citado espaço vazio mediante novos partidos de esquerda democrática, moderna e digna de credibilidade.

Trata-se de um projeto ambicioso, inclusive devido à escassez de latino-americanos dotados de talento e coragem suficientes para implementá-lo. Porém, se perdurar a ausência de iniciativas nesse sentido, a mediocridade das alternativas político-partidárias disponíveis continuará aumentando.

A primeira etapa desse projeto consistiria em redesenhar o conceito de esquerda, desassociando-o de obsoletos dogmas, tais como o da estatização da economia. Não porque as empresas privadas sejam comandadas por seres angelicais e ultra eficazes, mas sim porque o sistema produtivo funciona melhor em mãos de particulares e, na verdade, o povo não se beneficia em nada com a presença das estatais.

Posicionar-se politicamente à esquerda consiste hoje em apoiar um conjunto diversificado de objetivos, entre os quais se incluem:

a) declínio da inequidade social, mediante: investimentos em educação, saúde, saneamento, habitação, transporte coletivo e promoção social; estabelecimento de políticas salarial e tributária condizentes com a melhor distribuição de renda; reestruturação da previdência social; e valorização dos sindicatos;

b) engajamento incisivo nas ações preservadoras da ecologia; fomento à cooperação internacional em amplo espectro de atividades;

c) fidelidade à democracia; respeito à diversidade racial, religiosa e de orientação sexual; liberdade de criação e divulgação literária e artística.

Nenhum desses objetivos é incompatível com o capitalismo e, por outro lado, não há dúvidas de que favorecem o alcance de elevadas taxas de crescimento econômico e progresso social.

Fonte: “O Globo”, 14 de março de 2017.

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