Reestruturar o comércio exterior

A crise global pode fazer com que as estratégias de desenvolvimento de Brasil e China percorram trajetórias diagonalmente opostas. Por um lado, os chineses devem abandonar um pouco a ênfase em exportações como motor do crescimento.

Buscam igualmente baixar o elevado teto de poupança interna, estimulando o consumidor chinês a comprar mais. O keynesianismo à Pequim, no entanto, continuará a turbinar o investimento na já bastante extensa e competitiva infraestrutura.

Por outro lado, o Brasil, com o arrefecimento do real, pode assumir um perfil mais exportador. E aí reaparece a questão de nossa estrutura organizacional para lidar com o comércio exterior e a atração de investimentos produtivos.

Este é um desafio que vai além da política externa e da diplomacia tradicional. Deve ser prioridade na definição das estratégia de inserção global do Brasil. Mais do que iniciativas voltadas a poder ou prestígio internacionais, deveríamos priorizar em nossos esforços externos o projeto de prosperidade do país.

Aumentar o fluxo de exportações e importações como percentual do PIB é elemento constitutivo de um tal projeto. Hoje, o comércio exterior representa apenas uns 17% do PIB brasileiro. Para China e Coreia do Sul, são mais de 50%.

Nesse contexto, tínhamos de promover, como sempre salienta o experiente embaixador Rubens Barbosa, a unificação do comando da política de comércio exterior e atração de IEDs para o Brasil.

Hoje esta interlocução encontra-se dispersa e desarticulada na Esplanada dos Ministérios. Commodities e bens de baixo valor agregado, que têm caracterizado a pauta brasileira de exportações, não demandam grandes esforços de comercialização. São portanto “mais comprados do que vendidos”.

Iniciativas voltadas a um projeto de prosperidade são mais importantes do que a incerta entrada do Brasil nos clubes de organizações multilaterais claramente defasadas

Numa conjuntura cambial que pode facilitar as exportações brasileiras de bens de maior valor adicionado, é de novo hora de recolocar a discussão dos contornos – e rumos – de nosso organograma de comércio exterior.

Formulação, negociação, promoção e solução de contenciosos são quatro fases da dinâmicas de comércio internacional extremamente complexas. Precisamos de mais gente, mais coordenação e mais foco.

E temos de fazer uso mais eficiente, em termos de promoção e de investimentos, da rede de embaixadas e consulados do Brasil no exterior. Ela deveria tornar-se verdadeira “vitrine” de tudo que de melhor o Brasil tem de oferecer ao mundo.

Poderiam também ser “antenas” de oportunidades científico-tecnológicas, ainda mais nesse momento em que o Brasil implementa programas como o “Ciência sem Fronteiras” e o tema da inovação parece ter entrado de vez na tela de radar das preocupações brasileiras.

É portanto essencial que a nova competitividade da moeda brasileira seja acompanhada de estrutura mais atualizada e robusta para nossos objetivos comerciais.

Estas iniciativas voltadas a um projeto de prosperidade são mais importantes do que a incerta entrada do Brasil nos clubes mais exclusivos de um sistema de organizações multilaterais claramente defasadas.

Fonte: Brasil Econômico, 05/06/2012

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