Refletindo a Educação I

Por Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

Nas nossas escolas, os professores acreditam que devem ser remunerados para exercerem o livre pensamento. Nas nossas escolas os professores acham que devem ser pagos para utilizarem o maior dom do ser humano: a razão. Nas nossas escolas os professores prostituem aquilo que os fazem ser o que são. Nas nossas escolas os professores não são professores, mas empregados que, apenas por serem pagos (bem ou mal), cumprem o ofício de falar o que os outros já falaram, pensar o que os outros já pensaram e escrever o que os outros já escreveram sem dar a menor importância ao fato de que as produções originais destinavam-se a uma época particular e uma região particular. (Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo)

Certo dia encontrei na rua uma mulher de mais ou menos quarenta anos de idade, casada, três filhos, comerciária e estudante do quarto ano do curso de administração de empresas. Sabendo ela que eu lecionava no ensino superior, fez-me a seguinte pergunta: professor, porque a educação não evolui? Sem saber ao certo o sentido da sua pergunta, pedi que ela fosse mais clara no que queria me dizer.

Então ela explicou:

“Professor, há mais de quinze anos atrás, eu entrei no mesmo curso que hoje eu estou terminando e estudei um ano. Daí, tive que sair porque foi na época do meu casamento. O senhor sabe, casamento, casa, marido, filhos… Enfim, eu só pude voltar quinze anos depois. Sabe, eu sempre tive o sonho de ser administradora de empresas. Acontece professor que, quinze anos depois, quando eu retornei à universidade para retomar o que eu havia deixado para trás eu tive uma enorme decepção. Tudo o que eu havia visto antes, eu estava vendo novamente. As mesmas teorias, os mesmos autores, as mesmas histórias, os mesmos conceitos e, para piorar, através dos mesmos métodos, das mesmas didáticas e dos mesmos esquemas. Olha professor, entre a minha primeira estada na universidade e esta agora eu sempre trabalhei em empresas. Fui secretária de uma grande cooperativa agrícola; balconista de uma loja de variedades e sócia-gerente de uma livraria. Eu vivi grandes acontecimentos no mundo corporativo nesse espaço de quinze anos e essa é justamente a minha indagação: porque a educação não evolui com um mundo que está sempre em evolução? Porque nós ainda temos que ser experts em coisas que, se são importantes do ponto de vista histórico (e são), nem sempre o são do ponto de vista funcional? Porque, no período de quinze anos, não estudamos novos modelos de gestão, novas idéias, novos autores, novas práticas. Enfim, porque a educação não evolui?”“

Outro dia, eu estava dando uma palestra e na platéia estava uma ex-paciente minha que meses antes havia me dito que iria prestar vestibular para o curso de turismo. Já sendo pedagoga, a mesma tinha esse vestibular como um desafio, um reinício em matéria de sonhos e realizações novas. Primeiro porque era para ela um teste de capacidade e segundo, porque ela tinha o sonho de abrir uma agência de turismo e mudar de atividade profissional.

Eu já tinha sido informado, por outras pessoas, do seu sucesso no vestibular e sabia também que a mesma havia dado início ao seu novo curso e estava feliz por ela. Depois da palestra a mesma veio me cumprimentar e eu aproveitei para parabenizá-la pelo intento conseguido e eis a grande surpresa dita por ela:

“Professor, fiquei feliz em ter passado no vestibular, em saber que ainda sou capaz. Fiquei feliz também com tudo o que ia acontecer. Novos amigos, novos sonhos, novos planos, novos conhecimentos. Mas, essa felicidade não durou mais que quinze dias e eu abandonei o curso mesmo antes de iniciá-lo, propriamente. Veja bem, professor, não tem cabimento você estudar uma disciplina hoje e, trinta anos depois (é isso mesmo que você está lendo. Trinta anos depois), estudá-la novamente sem que nada de novo tenha sido acrescentado. E, pior, através da mesma metodologia, com os mesmos processos e a mesma didática. Quando vi aquilo tudo, não consegui ir além de duas semanas. Estava me fazendo mal”.

Leciono alguns módulos em um curso de Pós-Graduação realizado nos dias de sábado para uma turma onde os alunos já possui alguma formação acadêmica e eis que certo dia, em um dos intervalos uma aluna me abordou dizendo:

“Professor, acabei de terminar uma especialização em Psicopedagogia e fiquei decepcionada. Já sou pedagoga e a sensação que eu tenho é que, exceto as disciplinas da psicologia, o restante do curso foi uma revisão das coisas que vi na graduação. Os mesmos autores, as mesmas teorias, os mesmos conceitos sendo passados do mesmo modo, com a mesma didática e produzindo os mesmos resultados. Para piorar minha sensação de decepção, minha filha está no último ano de pedagogia vendo as mesmas coisas que eu vi quando era estudante há mais de vinte anos. Professor, até as ementas das disciplinas dela são iguais às ementas das minhas disciplinas quando eu era acadêmica. Eu pergunto como são as aulas e, acredite, são, de acordo com o que ela diz, iguais às que eu tive também. Como pode em um espaço de vinte e sete anos não existir nada de novo em um mundo que passou pelas transformações que passou e ainda está passando?”

Acima estão narrados três casos de pessoas diferentes e que não se conhecem reclamando de uma mesma situação – uma educação parada no tempo – e que fazem a mesma pergunta mesmo que de formas diferentes: professor, porque a educação não evolui em um mundo que vive em evolução? Me junto a eles e vou abrir um pouco mais essa indagação trocando educação por escola (da “pré” ao ensino superior) por entender essa intenção nas falas das respectivas pessoas e por saber que o termo educação é muito mais abrangente que o mero ensino formal.

Dessa maneira, porque a escola não caminha junto ao tempo real, ao hoje, ao tempo que está em tempo? Porque a escola não nos ensina coisas “usáveis” para a vida? Porque a escola não simplifica o próprio modo de ser escola? Porque a escola não se especializa em ser prazerosa? Enfim, porque a nossa escola é tão ruim e os nossos professores (com algumas exceções), também?

Tentando colocar mais lenha na fogueira, resolvi escrever esse artigo em partes sem nenhum compromisso em tentar dar respostas a essas indagações, embora arrisque tecer comentários pessoais. Mas, o verdadeiro objetivo do mesmo e dos outros que serão escritos é apenas inflamar os brios dos especialistas no assunto.

É impressionante, mas, lamentavelmente real, que os três exemplos citados acima sejam comuns à imensa maioria das pessoas que fizeram mais de um curso superior ou que estão fazendo um segundo curso.

No caso da Pedagogia (curso superior no qual eu passei mais tempo lecionando), chega a ser ridículo ver alunos serem reprovados porque não sabiam as normas educacionais vigentes no país na época do Estado Novo. Eu pergunto: e daí que alguém não sabe disso? Ou, e daí que alguém sabe disso? Onde o mundo muda? Melhor ainda, porque alguém tem que saber disso e para qual finalidade?

Claro que precisamos conhecer a nossa história; lógico que é importante sabermos das nossas raízes até porque, como diz o ditado, “um povo sem passado é povo sem futuro”. Mas o que me intriga (a mim e ao restante da população interessada) é porque, além disso, nada se faz de novo. Eu estudo as normas educacionais vigentes em vários momentos do país até as atuais e pronto. Mas, e daí, o que eu faço com esse conhecimento adquirido em prol de um mundo que não acabará hoje, ou seja, do futuro?

Certa vez, em uma reunião de professores de um curso de pedagogia fiz essa mesma indagação e, pasmem, obtive a seguinte resposta: “isso é coisa para os especialistas em educação”. Ora, eu pensava que os pedagogos eram justamente esses especialistas, retruquei. E, então, veio uma explicação que misturava burrice, despreparo, atitude mercenária e falta de compromisso: “professor, aqui na instituição eu sou paga para dar aulas e não para fazer projetos educacionais. Eu não ganho para isso. Além do mais, esse é um problema do governo e é ele que tem que resolver”.

Isso me deu uma luz para entender porque a educação não caminha com o tempo real. Nas nossas escolas, os professores acreditam que devem ser remunerados para exercerem o livre pensamento. Nas nossas escolas os professores acham que devem ser pagos para utilizarem o maior dom do ser humano: a razão. Nas nossas escolas os professores prostituem aquilo que os fazem ser o que são. Nas nossas escolas os professores não são professores, mas empregados que, apenas por serem pagos (bem ou mal), cumprem o ofício de falar o que os outros já falaram, pensar o que os outros já pensaram e escrever o que os outros já escreveram sem dar a menor importância ao fato de que as produções originais destinavam-se a uma época particular e uma região particular.

Deus me livre da desgraça de submeter a minha livre capacidade de pensar e raciocinar às leis de mercado. É o poder de pensar por minha conta e risco que me faz ser gente. É a capacidade que eu tenho de questionar, quebrar modelos, cometer os meus próprios erros que me confere a identidade que eu tenho me fazendo único no mundo. E, é esse dom que, exatamente por me proporcionar a possibilidade de falhar, me conduz aos meus acertos, também.

Ora, se eu só penso por minha conta se e quando sou para isso remunerado e isso nunca acontece, conclui-se que eu não penso. Então, se eu, que sou professor, não penso e não raciocino, como posso ensinar aos meus alunos a fazerem algo que nem eu mesmo sei o que é e que, justamente por isso, não sei fazer?

É triste sabermos que essa forma de ser professor é bastante comum em grande parte das escolas que temos, mesmo que quase ninguém tenha coragem de assumir.

Ainda no curso de pedagogia e acompanhando o mesmo raciocínio, de nada adianta estudarmos Vygotsky, Piaget, Freire, Rubens Alves, Lourenço Filho e tantos outros grandes nomes e que realmente mudaram o mundo através de suas idéias inovadoras (leia isso novamente em maiúsculas: INOVADORAS) para as suas épocas respectivas se eu não utilizo os seus saberes para produzir os meus próprios saberes para ser, eu também, inovador (pensar algo que ninguém pensou, fazer algo que ninguém fez, escrever o que ninguém escreveu, ser, enfim, o que ninguém foi) na minha época.

Sem coragem e atitude para inovar não há pesquisa, mas “decoreba”. Sem pesquisa não há extensão. Sem extensão o ensino superior perde a sua razão de existir, pois não devolve para a sociedade os frutos do investimento recebido dela. E, sem devolver para a sociedade os seus frutos, não há porque existir a própria pedagogia, psicologia, engenharia etc.
Outra vez fui “alertado” por uma colega professora no mesmo curso de pedagogia citado anteriormente da seguinte forma:

“Professor, cuidado com essa sua abertura a autores muito novos. Esses autores ainda não são testados para sabermos se o que eles afirmam é, de fato, de benefício para a educação. Outra coisa, não descuide dos autores clássicos, principalmente os de esquerda pois, como o senhor sabe, os autores que pensam conforme a elite burguesa capitalista são descomprometidos com uma educação pública, gratuita e de qualidade e sempre estão a serviço do pensamento neoliberal americano de transformar a educação em um negócio que deve ser vendido”.

Essa verborragia funcionou como outra luz para entender porque a educação que temos não evolui com o tempo. No ensino superior, infelizmente, ainda reina uma ideologia política que há muito não condiz com o mundo em que vivemos. Ideologicamente falando, as universidades pararam no auge da guerra fria, no tempo em que o mundo era dividido em esquerda e direita, capitalistas e comunistas, patrões e proletariado. Será que é tão difícil entender que o mundo de hoje não é mais igual (graças a Deus, inclusive) ao mundo de 1970 e que, portanto, não há mais como vê-lo e nem explicá-lo da mesma forma que fazíamos em 1970? Será que é tão difícil admitir que entre 1970 e hoje já se passaram muitos anos?

Ideologia quer dizer, dentre outras coisas, sistema de idéias que pautam as decisões de uma pessoa. Ora, o que devemos esperar de um sistema onde as pessoas que o fazem, pensam e decidem do mesmo modo que pensavam e decidiam trinta ou quarenta anos antes? Não é de espantar que nesse sistema as pessoas formem as suas idéias a partir de autores, valores, conceitos e fórmulas que, de igual modo, valiam (algumas ainda valem) há trinta ou quarenta anos atrás e, a pior parte, não se abram aos valores, conceitos e fórmulas de autores surgidos nesse espaço de tempo não aceito, não reconhecido e não percorrido por eles mas que, fundamentalmente existiu e existe com ou sem às suas vontades.

Observem que por este prisma temos pessoas que não evoluem fazendo escolas que não evoluem formando um sistema educacional que não evolui. Por sua vez, um sistema parado no tempo sustenta escolas paradas no tempo que não permitem as pessoas evoluírem. Ou seja, no nosso triste sistema educacional há um ciclo que se auto-sustenta com atraso, burrice, impedimentos e um enorme faz-de-conta. Apenas para atestar essa verdade, vejam que os mesmos problemas mencionados pelas três pessoas citadas no início do texto são válidos também para os demais níveis de ensino.

Porque um aluno do ensino médio tem que aprender logaritmo, por exemplo? Qual o sentido desse aprendizado para a sua vida? O que alguém faz ou deixa de fazer com isso no ensino médio? Em que o mundo muda? Aliás, alguém, no ensino médio sabe qual a utilidade prática do logaritmo? E raiz quadrada? Mudando de disciplina, porque alguém tem que aprender o pretérito mais que perfeito de qualquer coisa? No prático, na vida real, para que isso serve? Quem se comunica dentro dos padrões da gramática normativa quando, na verdade e sinceramente falando, a mesma muito mais impede a comunicação que a estimula?

Diante disso tudo, faço minha a indagação das pessoas mencionadas acima: porque a educação não evolui? Porque evolução só existe com quebra de modelo e quebrar modelo dói. Dói porque o modelo a ser quebrado é o nosso modelo e não o do outro. Evolução significa cortar na própria carne, morrer com o que se é para ressurgir como uma incógnita. Evolução significa abandonar a segurança das coisas sabidas para adentrar no mar das dúvidas e das incertezas necessárias para a vida ser vida. Evolução significa pensar.

Mas, pensar não é fácil e no nosso sistema educacional eu só penso por minha conta e risco se e quando sou para isso remunerado, mas, como isso nunca acontece, conclui-se que eu não penso.

Sobre o autor:

Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo – Psicólogo clínico e empresarial, Psicopedagogo, professor de graduação e pós-graduação de psicologia,antropologia e sociologia e conferencista.

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