O Globo, 19 de agosto de 2005 com Patrícia Carlos de Andrade

Olhando para o mundo com a mente aberta, o observador despido de dogmas e ideologias conclui que alguns países deram certo: geram para a grande maioria de seus cidadãos bem-estar, grau considerável de riqueza e de certeza do futuro, garantia de que deixarão para seus filhos possibilidades concretas de realização e crescimento, com o apoio do Estado e demais instituições, no que se fazem necessárias, e com liberdade para construir sua trajetória como bem entender, dentro da tradição e das regras há muito estabelecidas. Todos esses países, não por coincidência, são democracias de mercado consolidadas. Com o mesmo olhar panorâmico, o observador vê a evidente realidade de que muitos outros países ainda não deram certo. São sociedades fracassadas e Estados débeis ou falidos que impõem a seus habitantes falta de perspectivas, pobreza, incerteza, insegurança, necessidade de emigração, mesmo que haja a ilusão do pequeno grupo de privilegiados, que consome ricamente e tem relação com o poder, de que faz parte da modernidade. Instituições e regras são fracas e voláteis. Nesses países, não por coincidência, existe ausência ou insuficiência de mercados e de democracia. Há também os países que quebraram o padrão de séculos de atraso e avançam velozmente para a modernidade. Os íbero-americanos Espanha, Portugal e Chile, exemplos mais próximos, conseguiram progredir decisivamente e cruzar o limiar da modernidade. Por quê? Continuaram defendendo sua história e tradições? Inventaram suas próprias fórmulas? A resposta é clara: conseguiram reverter suas histórias de fracasso aqueles que aceitaram, não sem custo e dor, descartar parte de suas tradições, importando instituições que formam a base das sociedades vencedoras. Até na ação de imitar, esses países foram inteligentes sem precisar ser originais: seguiram os exemplos de Alemanha e Itália, que importaram instituições depois da Segunda Guerra Mundial. Não por coincidência, o grosso das instituições que provaram sua eficácia ao longo da História são fundamentalmente anglo-saxônicas. Não é coincidência: os que souberam fazer construíram o modelo. Buscar aprender e reproduzir no país o que o mundo tem de melhor é defender o interesse nacional — nacionalismo inteligente. Insistir na singularidade do Brasil e na reafirmação das tradições é nacionalismo burro; é condenar-nos a estar cada vez mais longe do progresso. Ou alguém imagina que Japão e Coréia do Sul teriam entrado para o Primeiro Mundo se, em vez de importar do Ocidente a democracia de mercado, depois da Segunda Guerra Mundial, tivessem continuado nas suas milenares tradições asiáticas? No Brasil, nas últimas duas décadas, introduzimos reformas fundamentais para o funcionamento de uma economia de mercado e de uma democracia representativa, mas não todas. A crise política dos últimos dois meses mostra dramaticamente os limites da modernização parcial e indica o dilema de ferro: completar a ruptura com a tradição institucional latino-americana — autoritarismo, personalismo, populismo, militarismo, revoltas populares — responsável por décadas de atraso ou estagnação, e tornar-se uma sociedade moderna e plenamente ocidentalizada; ou conciliar, como no passado, e acomodar-nos a um cinismo crescente e generalizado, que esgarce irreversivelmente o tecido social. O meio-termo não é possível e sua busca levará a conseqüências nefastas; não há milagres que possam impedir, por si, a degradação de uma sociedade. Os exemplos abundam: Colômbia, desde a década de 80; Rússia, Ucrânia e Venezuela, desde a década de 90; Argentina, desde 2001. O problema principal do Brasil é que, com falta de humildade e pretensão de sermos únicos pela nossa grandeza, não nos decidimos por completar a importação e modernização de instituições. O potencial de progresso econômico não se realiza e atingimos o limite: se não progredirmos decisivamente nas reformas institucionais, nos degradaremos como sociedade. A atual crise política atingiu um grau de profundidade irreversível. É um momento extremamente grave, já que o sistema político-institucional é frágil em seus fundamentos, na forma e no conteúdo. A maioria dos representantes da elite, tanto à esquerda quanto à direita, encarna o atraso. Como mostra claramente a presente crise, ideologias não impedem a corrupção. Líderes políticos e empresariais podem pensar que é possível sair da crise com boa coalizão político-eleitoral nas próximas eleições. É ilusão. O presidencialismo de coalizão é disfuncional e o atual sistema eleitoral-partidário é obsoleto, com custo gigantesco das campanhas eleitorais, que naturalmente promovem a corrupção. Sem completar a reforma dos fundamentos, baseados no modelo vencedor do Ocidente, retrocederemos. Discutir cada uma das reformas institucionais urgentes, neste momento de esgotamento do nosso modelo, vai além do escopo deste artigo. Incluem as reformas: 1) política, para diminuir o custo e aumentar a representatividade e a eficiência da política; 2) do Estado, com enxugamento e otimização de suas funções; 3) de privatização das empresas estatais, inclusive para diminuir o poder irracional dos fundos de pensões, que tanto distorcem nosso capitalismo; 4) trabalhista; 5) previdenciária; 6) tributária; e 7) fiscal. A maioria já está na agenda pública e do Congresso sob forma de projetos de lei, em lenta tramitação. O que queremos chamar a atenção é para a urgência do debate e da aprovação e para a necessidade de que todas ocorram quase simultaneamente — não adianta uma aqui, outra ali, ou fazer algumas e outras não. Queremos chamar a atenção também para a obrigação de cada indivíduo de fazer todos os esforços para deixar exemplos e oportunidades para as gerações seguintes e, para isso, neste momento, precisamos reverter o péssimo exemplo que os jovens estão recebendo daqueles que tiveram nas mãos o poder de conduzir o país para a modernidade e perderam a oportunidade.

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