Regeneração estatal nas empresas privatizadas

Até o início dos anos 1990, era comum ouvir e ler críticas a respeito da interferência do governo na indústria e na prestação de serviços. “Não é função do governo produzir aço nem operar companhias telefônicas ou de luz”, eram frases contundentemente repetidas para espinafrar a administração pública de empresas que “funcionariam melhor se fossem privadas”.

Há que se lembrar, porém, que tanto as siderúrgicas quanto as empresas de telecomunicação só começaram estatais porque havia pouco interesse do mundo privado em colocar recursos nessas áreas. O governo criou a Siderbrás para fabricar aço e a Telebrás para estender os fios das subsidiárias de telefonia.

A partir de 1991, iniciou-se no país um dos maiores programas de desestatização já realizados no mundo. As siderúrgicas Usiminas, Cosipae CSN, por exemplo, passaram ao controle de grupos particulares, da mesma forma que as subsidiárias da Telebrás e as concessionárias estaduais de energia.

Hoje, Usiminas e Cosipa formam uma empresa só. Recentemente, a CSN demonstrou interesse em fundir-se com a Usiminas. Caso isso se confirme, será recriada a Siderbrás, só que não controlada pelo Estado.

As filiais da Telebrás hoje estão agrupadas basicamente em dois conglomerados: Telefônica e Oi.

A principal justificativa para a regeneração privada de titãs empresariais antes administrados pelo governo é que o Brasil precisa formar grupos fortes para concorrer num mundo cada vez mais globalizado.

Sabe-se que, sob o jugo acionário do Estado, muitas dessas empresas eram perdulárias e submetidas a todo tipo de favorecimento político. Mas também não se comprovou que, transferidas para a iniciativa privada -nacional ou estrangeira -, tornaram-se um exemplo de competência, embora lucrativas.

A tibieza dos concorrentes ou a inexistência de rivais ressuscitou nessas companhias a indolência da era estatal para resolver problemas com clientes, por exemplo. Vejam-se os casos das concessionárias de energia de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Voltar ao tempo em que o mundo estatal dominava o capitalismo brasileiro é uma teoria que causa calafrios somente de imaginá-la.

No entanto, provocar essa sanfona acionária que começou nas mãos do governo e passou para as da iniciativa privada com o intuito de construir grupos fortes é uma iniciativa que não leva muito em consideração as consequências dessa robustez sobre quem compra os produtos ou serviços dessascompanhias, nem de quem lhes fornece os insumos.

A interferência do Estado tem de visar ao bem público. Só dessa forma ela é justificável, seja no controle acionário de empresas, seja no controle das ações dessas empresas.

Fonte: Brasil Econômico, 06/07/2011

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