Globo, 17 de maio de 2007


O presidente Lula está feliz da vida. É a conclusão geral que se pode tirar de sua entrevista de terça-feira. Na verdade, parece satisfeitíssimo com seu governo, e isso em todos os níveis, na política, na diplomacia e, sobretudo, na economia. Admite que é preciso acertar alguns pontos – destravar as licenças ambientais, regulamentar greve de funcionário público, ajudar setores mais atrapalhados com o real valorizado, mais alguma coisa aqui e ali – mas nada que altere o panorama geral.

Alguns dos temas que mais frequentam o noticiário como problemas graves foram desclassificados. Apagão aéreo, por exemplo, não existe. Houve um acidente que está sendo apurado. E também alguma confusão mas por excesso de passageiros, gente que passou a tomar avião porque as passagens ficaram mais baratas e o crediário mais fácil. Ou seja, é até um bom problema.

Segurança pública é tarefa dos governos estaduais. Mas o governo federal vai dar uma boa mão.

Que mais? Mais nada. Vai tudo tão bem que o presidente se prepara para fazer o seu sucessor.

Estaria a situação tão boa assim?

Muitas coisas vão muito bem. Inflação, por exemplo. Está rodando na base de 3% ao ano e as expectativas (não do governo, mas do setor privado) indicam que continuará assim.

Na entrevista, Lula mostrou mais uma vez como sabe do enorme impacto da estabilidade monetária para a vida das pessoas. “Já vivi de salário”, soltou lá pelas tantas.

Ora, quem entregou essa inflação tão benigna? Ao contrário de muitos de seus velhos companheiros, Lula aprendeu a resposta: o Banco Central, autônomo, com suas políticas de metas de inflação e câmbio flutuante. Isso quer dizer, preto no branco, que os preços estão controlados hoje porque os juros subiram no passado e porque o dólar ficou muito barato.

No momento, os juros estão caindo e o Banco Central tem comprado dólares para evitar uma desvalorização mais intensa ainda da moeda americana. Mas esse é o curso, digamos, normal da política monetária, o relaxamento depois do aperto.

Ou seja, para que mexer no Banco Central, no Copom ou no dólar, agora que os resultados aparecem?

Não faz muito tempo, o pessoal do PT e o próprio Lula,  quando pressionado, diziam que a política econômica do primeiro mandato – que repetia e reforçava a de FHC – era de emergência, só para sair da crise. Depois, viria a verdadeira.

Acabou essa conversa. Na coletiva de terça, Lula não apenas garantiu que nada muda como fez o movimento final para confiscar essa política. Metas de inflação, câmbio flutuante, ajuste das contas públicas, superávit primário, foi tudo inventado na era FHC. Agora, tudo pertence a Lula.

E – quer saber? – por merecimento. Primeiro, porque Lula resistiu a enormes pressões para mudá-la. Lembrou que o Copom elevou juros na véspera da eleição municipal de 2004, para horror dos companheiros, que ligavam pedindo intervenção no BC. E segundo, porque ninguém antes defendera essa política de modo tão firme e tão convicto quanto Lula.

Os tucanos morriam de vergonha, ficavam a todo momento pedindo desculpas pelo comportamento do Banco Central ou do então ministro da Fazenda Pedro Malan. Dançaram.

Hoje, a bandeira principal das duas estrelas tucanas, os governadores Aécio Neves e José Serra, é pedir autorização para aumentar o limite de endividamento dos estados.

Ok, disse Lula, paternalmente.

Prometeu dar uma olhada nisso, talvez alivie um pouco, mas sem ferir a sagrada responsabilidade fiscal. Nada de voltar a farra do boi com o dinheiro público, advertiu o presidente.

É que a gente já se acostumou a essas mudanças, mas, pessoal, vamos reparar: é de pasmar. O presidente do PT passando um pito fiscal nos tucanos. Talvez por isso mesmo digam que Lula é um ex-petista. Em todo caso, ele disse que seu sucessor não precisa ser do PT.

Então, é só relaxar e aproveitar?

Relaxado, o governo está. Mas aproveitará mesmo se, primeiro, continuar com a dupla sorte:  bonança na economia internacional e as chuvas para garantir o fornecimento de energia. Com isso, e dada a estabilidade macroeconômica, o país cresce, fácil, 4,5% ao ano, e até um pouco mais.

Mas não decola, porque o custo Brasil – tributário, trabalhista, previdenciário e burocrático – continua limitando a competitividade do setor privado. Como o setor público não tem dinheiro, os investimentos serão limitados.

Parece que Lula optou pelos 4,5% fáceis, deixando de lado a  complicação das reformas. É pena. Se ele assumisse as reformas como assumiu o Copom…

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