Renda dos pais e trabalho dos jovens

Naércio Menezes Filho (nova)

Uma estatística que tem chamado a atenção dos analistas econômicos recentemente é a diminuição do número de jovens que participa do mercado de trabalho. Em 2005, 23 milhões de jovens entre 15 e 24 anos estavam trabalhando ou procurando emprego, ao passo que em 2013 esse número havia diminuído para 19 milhões. Isso tem mantido a taxa de desemprego baixa a despeito da forte redução da atividade econômica. O que explica esse fenômeno? Quais as perspectivas daqui pra frente?

O primeiro aspecto que vale a pena ressaltar é que para entendermos as variações na taxa de desemprego temos que entender o comportamento dos jovens. Apesar de representarem somente 25% da população acima de 14 anos, os jovens de 15 a 24 anos de idade representavam 42% dos desempregados nas regiões metropolitanas em 2013. Isso ocorre porque as pessoas que entram pela primeira vez no mercado de trabalho são jovens e também porque os jovens mudam muito de emprego e costumam ficar um período de tempo desempregados entre essas mudanças. Além disso, as flutuações nas taxas de desemprego ao longo do tempo são bem maiores entre os jovens do que entre os adultos.

Outro aspecto relevante para entendermos o funcionamento do mercado de trabalho é a composição familiar dos domicílios em que esses jovens moram. Por exemplo, metade dos jovens de 15 a 24 anos de idade mora com ambos os pais, 15% moram com somente um deles (geralmente a mãe) enquanto os demais (35%) moram sós. Assim, o que acontece com os demais membros da família é muito importante para as decisões de estudo e trabalho de grande parte desses jovens.

A retração na economia e os aumentos cada vez menores do salário mínimo provavelmente causarão uma diminuição na renda média dos adultos que trará consigo um novo aumento da taxa de participação dos jovens

Ao relacionar a renda média do trabalho dos adultos que moram com os jovens e a taxa de participação desses mesmos jovens ao longo do tempo. Vale notar que os adultos que não trabalham entram com renda zero no cálculo da renda média, o que explica os valores mais baixos do que o normal. Assim, a renda média pode subir tanto porque os salários dos adultos trabalhadores estão aumentando como porque há mais adultos trabalhando no domicílio.

Existem três períodos claramente distintos. Entre 1992 e 1996 a renda média dos adultos aumentou quase 50%, como resultado da estabilização da economia e do crescimento econômico resultante. Nesse período a oferta de trabalho dos jovens declinou de 67% para 62%. Entre 1996 e 2005, a renda média caiu (especialmente entre 1998 e 2003) e a oferta de trabalho aumentou, atingindo 65%. No período mais recente, a partir de 2005, a renda média dos adultos aumentou 30%, ao passo que a oferta de trabalho dos jovens declinou novamente, de 65% para 59%.

Mas será que a relação entre essas variáveis significa que a renda dos adultos afeta as decisões dos jovens ou é apenas uma relação espúria? Sabemos, por exemplo, que as pessoas mais gordas tendem a consumir mais refrigerantes dietéticos, o que não implica necessariamente que esses refrigerantes provoquem aumento de peso. É muito difícil estabelecer uma relação de causalidade entre variáveis econômicas, mas uma pesquisa recente deu um primeiro passo nessa direção ao incluir em um modelo estatístico vários outros determinantes da taxa de participação dos jovens, tais como: sexo, idade, cor, composição demográfica dos domicílios e a taxa de desemprego e renda média dos Estados em que os jovens residem1.

Os resultados mostram que o aumento da renda média dos adultos entre 2005 e 2013 consegue explicar a maior parte do declínio da parcela de jovens que trabalhavam ou procuravam emprego entre 2005 e 2013 (é bem mais difícil explicar a diminuição ocorrida na parcela de jovens que estudava e trabalhava ao mesmo tempo). Isso, aliado à própria redução do número de jovens na população ocorrida devido à transição demográfica, explicam grande parte da diminuição do número de jovens no mercado de trabalho.

O principal responsável pelo aumento de renda média dos adultos parece ter sido o aumento da renda das mães de família, tanto nos domicílios em que elas moram sozinhas com os filhos como naqueles em que os pais também estão presentes. E parte desse aumento parece estar relacionada com o aumento no valor real do salário mínimo que ocorreu nesse período e que afeta desproporcionalmente as mulheres.

Quais as perspectivas futuras? A retração na economia e os aumentos cada vez menores do salário mínimo provavelmente causarão uma diminuição na renda média dos adultos que trará consigo um novo aumento da taxa de participação dos jovens e, consequentemente, um aumento da taxa de desemprego em 2015. Veremos.

Fonte: Valor Econômico, 20/2/2015

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