Domingo, 11 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Rescaldo da nova matriz econômica

Em abril, o FMI divulgou as mais recentes projeções para o crescimento e outros indicadores econômicos para as economias em 2015.

O desempenho de uma economia depende de seu entorno, ou seja, do que ocorre na economia global, mas também das escolhas feitas pelos formuladores de política econômica.

Quando uma economia não vai bem, é difícil sabermos se isso se deve à dinâmica do entorno ou a erros de política econômica.

Retomo o tema da desaceleração do crescimento considerando o primeiro quinquênio da presidente Dilma. Apesar de termos alterado a condução da política econômica com a escolha de um ministro ortodoxo, os efeitos ruins da nova matriz econômica -o regime de política econômica que vigorou de 2009 até 2014- serão sentidos pelos menos até 2017.

Como grupo de controle, considero a dinâmica da economia latino-americana excluindo o Brasil. A hipótese é que movimentos da economia mundial que afetam nossa economia devem também influenciar a nossa região de forma parecida.

Escolhi quatro períodos. De 1983 até 1994, os oito anos de FHC, os oito nos de Lula e o primeiro quinquênio de Dilma. A taxa de crescimento percentual da economia mundial em cada período foi de, respectivamente, 3,5%, 3,5%, 4,2% e 3,6%. Para a América Latina, exclusive Brasil, tivemos 2,6%, 2,0%, 4,1% e 3,2%. Para o Brasil, os números foram 2,5%, 2,4%, 4,0% e 1,5%.

Fatores internos explicam os péssimos resultados do período Dilma; e só agora a conta começou a ser paga

Nos primeiros dois períodos, década de 1980 até 1994 e governo FHC, a América Latina cresceu, respectivamente, 1 ponto percentual e 1,5 ponto percentual aquém da economia mundial e o Brasil acompanhava a região. Nos anos 1980, crescemos de forma um pouco mais lenta que a América Latina, e, nos anos FHC, 0,4 ponto mais rápido.

Nos anos Lula, Brasil e América Latina cresceram a velocidade muito próxima da economia mundial, com nosso país um pouco (0,1 ponto) abaixo da sua região. No quinquênio Dilma, a América Latina crescerá um pouco abaixo (0,4 ponto) da economia global, e o Brasil, a velocidade muito inferior à do mundo (2,1 pontos). No governo Dilma, nos descolamos não só da economia global mas das da América Latina.

Razoável supor que essa diferença de desempenho deve-se aos erros da nova matriz econômica.

Há fatores externos que têm dificultado o Brasil? Separei três variáveis externas que nos afetam: os termos de troca, os juros internacionais (no caso, os juros reais pagos pelos títulos de dez anos do Tesouro dos EUA) e a taxa de crescimento do quantum (quantidades sem levar em conta o preço) do comércio global.

Na média do quinquênio de Dilma, os termos de troca foram 20% maiores que nos períodos FHC e Lula e 50% maiores que nos anos 1980 até 1994. Os juros reis internacionais foram próximos de zero no quinquênio de Dilma, ante 1,4% no período Lula e 2,5% nos períodos anteriores. A taxa de crescimento do volume do comércio internacional foi 0,9 ponto menor no período Dilma que nos anos FHC (4,1% ao ano, ante 5,0%).

A menos que o menor ritmo de crescimento do comércio mais do que compense termos de troca 20% maiores e juros bem menores- hipótese pouco provável pois somos mais fechados que as outras economias da região -, concluo que fatores internos explicam os péssimos resultados do período Dilma.

E o problema é que somente agora a conta começou a ser paga. Temos mais dois anos e meio, pelo menos, de deserto!

Fonte: Folha de São Paulo, 7/6/2015

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