Resgate da Federação

A concentração de poder político e recursos financeiros no governo federal explica muito de nossa degeneração sistêmica

A atual estrutura de administração dirigista e centralizada do Estado brasileiro é um monumento ao seu próprio fracasso.

São quase 40 ministérios e seus braços armados em bancos públicos e empresas estatais, onde se negociam interesses não republicanos de grupos econômicos e onde se partilha o poder político com foco no financiamento das campanhas eleitorais e no enriquecimento ilícito das criaturas do pântano.

A disfuncionalidade da máquina do Estado e a feroz disputa por seu aparelhamento revelam tanto a incapacidade de lideranças honestas em reformar o antigo que se tornou obsoleto quanto aousadia e a voracidade de políticos desonestos nas operações dessa fabulosa engrenagem para a manutenção do poder e da roubalheira.

É fato que a contribuição da social-democracia às nossas práticas políticas foi a redemocratização dos orçamentos públicos. A grande preocupação agora é com o capital humano brasileiro, em suas condições de saúde, de educação e de moradia, em contraste com a acumulação de infraestrutura física nos governos militares.

Os gastos públicos com transferências de renda e com programas de assistência social foram uma exigência de nossa democracia emergente. Mas, por ignorância econômica, por oportunismo político, por cegueira ideológica, por incapacidade administrativa e por operações de organizações criminosas, como reveladas pela Lava Jato, perderam-se no labirinto desse disfuncional aparelho de Estado os social-democratas que nos dirigem desde a redemocratização.

Ora, o povo vive nos Estados e municípios, e não em Brasília. O dinheiro da saúde, da educação, das moradias, do saneamento, da inclusão digital e da segurança tem de ir aonde o povo está.

E, pior, gastam-se menos recursos com essas prioridades do que com salários e aposentadorias exorbitantes na própria máquina pública e pagamentos de juros a rentistas.

Precisamos resgatar a Federação. A concentração de poder financeiro e político no governo federal explica muito de nossa degeneração sistêmica.

O pacto federativo exige a reforma fiscal e a reforma administrativa do Estado, com enxugamento radical do número de ministérios e a descentralização de recursos e atribuições para as comunidades em que efetivamente vive a população. Mais Brasil e menos Brasília.

Fonte: “O Globo”,

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