Respaldo americano não é desfeita ao Brasil

É impensável que a reforma do Conselho de Segurança resulte no acréscimo de apenas um país e o apoio à emergente Índia cria um precedente que favorece ao País

Barack Obama acaba de surpreender com uma reviravolta na posição internacional dos Estados Unidos, anunciando apoio formal à candidatura da Índia a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Feita em discurso no próprio Parlamento indiano, a declaração de apoio à antiga reivindicação indiana significa, antes de mais nada, uma grande ênfase na relação com Índia que, segundo o presidente americano: “Será uma das parcerias que definirão o século 21.” De igual importância é o consequente destravamento da reforma do Conselho de Segurança.

A questão não vai se resolver imediatamente, pois há mais fatores de complicação do que apenas a posição negativa dos Estados Unidos .Na realidade, há muitos anos que o tema é objeto de acelerações e freadas.

Formamos há 15 anos uma aliança com os principais candidatos – Alemanha, Japão e Índia, que passou ser a base de nossa atuação nesta matéria.

Mas foi impossível furar a inércia. Os principais complicadores eram:

1) o virtual veto chinês à entrada do Japão e, em menor grau, da Índia, países com os quais a China tem rivalidades passadas e presentes;

2) as rivalidades europeias, que faziam com que a Itália se opusesse à entrada da Alemanha;

3) a dificuldade de aceitar que a União Europeia tivesse mais uma cadeira permanente, além da que já ocupam França e Grã-Bretanha;

4) a oposição que o Paquistão opunha à entrada da Índia, sua rival histórica;

5) em nossa região, havia forte resistência da Argentina e de outros países à escolha do Brasil, pois eles preferiam que houvesse uma cadeira latino-americana a ser preenchida em rodízio por um número restrito de países.

Que diferença 10 ou 15 anos podem fazer! A maior parte das dificuldades acima mencionadas deixou de ter o mesmo peso. A Índia , que antes das reformas lançadas pelo primeiro-ministro Manmohan Singh, parecia condenada a permanecer atolada nos seus imensos problemas sociais, despontou como um país dinâmico e vigoroso, superando de longe o Paquistão.

O Brasil, da mesma forma, conseguiu aliar crescimento e estabilidade monetária, firmando-se como um “primus inter pares” na nossa região. Por outra parte, a candidatura do Japão perdeu força em razão da performance pouco significativa de sua economia, especialmente se comparada à chinesa.

A candidatura da Alemanha continua assediada pelos mesmos problemas, especialmente da sobrerrepresentação europeia. Houve, assim, uma relativasimplificação do quadro permanecendo como candidatos viáveis a Índia (agoramuito reforçada pelo apoio americano), o Brasil e, possivelmente, aAlemanha. É interessante notar que, logo após a fala de Obama, osubsecretário de Estado americano, William Burns, disse que a reforma doConselho vai ser um processo muito difícil e demorado.

Quais são os impactos da nova posição de Obama sobre a reivindicaçãohistórica do Brasil?

É impensável que a reforma do Conselho de Segurança resulte no acréscimo deapenas um país, ficando a América Latina de fora. As chances do Brasil deobter a cadeira permanente são muito grandes nos próximos anos. O próprioObama fez, no mesmo discurso no Parlamento indiano, uma profissão de fémultilateral que há muito não se ouvia de um presidente americano: “A ordem internacional justa e sustentável que a América busca inclui uma Organização das Nações Unidas que seja eficiente, efetiva, legítima e com credibilidade.”

A longa tradição brasileira de paz e apoio às soluções multilaterais faz com que o Brasil se encaixe como uma luva nesta proposta, desde que pratique,

como a Índia, uma política externa altiva, mas equilibrada e pragmática. É, por isso, da máxima importância que nossos dirigentes reajam de forma prudente, evitando afirmar que fomos preteridos e vituperar contra os EUA. A prioridade dada à Índia não constitui uma desfeita ao Brasil, pois é, sobretudo, uma opção por um dos mais importantes países emergentes, o que cria um precedente que nos favorece.

Fonte: O Estado de S.Paulo

RELACIONADOS