Em um contexto de sucessivos e intermináveis escândalos políticos apurados pela mídia, e ocorridos num ano eleitoral decisivo para o país, nada mais oportuno do que registrar e refletir sobre a grita por responsabilidade da sociedade em geral e, em particular, do empresariado, que lançou agora no final de agosto o “Manifesto Eleições 2006: voto certo, pela ética e contra a corrupção”. Pedem os empresários do Instituto Ethos de Responsabilidade Social e do PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais, de São Paulo, que os cidadãos não votem em candidatos envolvidos nos casos do mensalão e dos sanguessugas e denunciem ao Disque-Denúncia Eleitoral, através do 0800-600-7400, os casos de gastos abusivos de campanhas e de fraudes eleitorais. Às próprias empresas, o manifesto pede para que não financiem campanhas desses mesmos candidatos e, ao contrário se engajem nas campanhas de esclarecimento sobre a importância do voto consciente entre funcionários, clientes, fornecedores e comunidade em que atuam. Nos últimos meses três publicações sobre o tema da responsabilidade social empresarial, a RSE como chamam, foram lançadas por entidades empresariais: o guia “Responsabilidade Social Empresarial” da CNI, o estudo “Empresas e imprensa: pauta de responsabilidade, uma análise da cobertura jornalística sobre a RSE”, pelo Instituto Ethos em parceria com a Andi, e a “Pesquisa 2005: responsabilidade social das empresas e percepção do consumidor brasileiro”, do Instituto Akatu para o Consumo Consciente. Com a iniciativa do Manifesto das Eleições 2006, do Pacto Empresarial pela Integridade e contra a Corrupção e a edição do documento sobre a Responsabilidade Social das Empresas no Processo Eleitoral, feito em parceria com a Patri – Relações Governamentais e Políticas Públicas, além da iniciativa do Disque-Denúncia Eleitoral do PNBE, o empresariado paulista dá um passo decisivo para que o movimento de RSE, que sempre esteve limitado às responsabilidades sócio-ambientais das empresas, ganhe maior adesão da sociedade e da mídia, que estão a priorizar a responsabilidade política das elites como a pré-condição para qualquer outra mudança na cultura política brasileira e determinante, enfim, da própria consciência de cidadania. Como sempre frisamos, não basta aos cidadãos terem responsabilidade civil. Não basta às empresas terem responsabilidade social. Não basta aos governos terem responsabilidade fiscal. É preciso o compromisso de todos para com a responsabilidade política, expressão de uma verdadeira cultura de cidadania. Basta entender que a cobrança generalizada da sociedade é na verdade cobrança de responsabilidade apenas, que todos sem exceção devem começar a responder pelos seus atos diante da lei. Sobretudo o empresariado que, para além do poder econômico de fazer acontecer, tem o dever exemplar do protagonismo político e de liderar a própria sociedade em direção ao verdadeiro conceito de cidadania. Ao invés de tentar ocupar o vazio da função social do Estado, deve possibilitar o empoderamento da própria sociedade para controlar as políticas e os orçamentos públicos dos governos e o desempenho dos mandatos políticos. Em que pese a sutil menção da questão política no guia da CNI, sob o vago conceito de “co-responsabilidade pelo todo”, e o manifesto do Ethos se limitar ao processo eleitoral, o que temos defendido é que isso não basta, quando a sociedade está perplexa diante da extensão interminável da crise política e o espetáculo de delitos sucessivos vomitados pela mídia. Embora a coloque no degrau mais alto de uma escala de desenvolvimento de uma empresa, na verdade a “co-responsabilidade” política deveria ser o primeiro passo antes de qualquer outra responsabilidade. Afinal, é a própria história econômica do ocidente que nos relata: foram sobretudo iniciativas empresariais que garantiram os valores da democracia e da estabilidade das instituições políticas, quando ações da chamada RSE só tiveram efetividade quando construídas sobre o patamar do que podemos chamar aqui de RPE, responsabilidade política empresarial. E isso não se consegue se omitindo da esfera política, ou participando dela apenas em momentos de crise. Para empresários e executivos que quiserem participar, sugerimos a adesão à “Declaração de Responsabilidade Política” ou à “Defesa do Eleitor” no site da www.avozdocidadao.com.br

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