Resquícios de uma crise

Na semana passada, os mercados se voltaram para os últimos lances nas negociações em torno de um pacote de ajuda da União Europeia para a Grécia. No fim, ficou combinado um aporte de recursos preventivos, só devendo ser usados se necessário, podendo chegar a 22 bilhões de euros, com 60% dos 27 países membros e 40% do FMI.

A questão da prevenção foi muito reforçada neste Encontro de Cúpula. Isto porque estes recursos só serão usados caso a Grécia realmente se mostre incapaz de saldar seus compromissos ao longo deste ano. Lembremos que ao fim de maio são previstos cerca de 25 bilhões de dívidas a vencerem, elevada a cerca de 30 bilhões de euros ao fim do semestre. Será que esta mobilização é suficiente, dada a situação pré-insolvente da Grécia? Em paralelo a isto, será importante que se leve a cabo o pacote fiscal grego anunciado, com ajustes em torno de 4,8 bilhões de euros.

Para piorar, corre-se o risco de a necessidade de ajudar um país acabe por gerar outras demandas igualmente delicadas, como Portugal, Irlanda, Espanha… Por que só a Grécia será beneficiada?

Na verdade, esta situação delicada atinge toda a Europa e não apenas os países do bloco dos PIGS. Isto confirma a farra do crédito irresponsável que varreu o mundo rico no início desta década (2001 a 2008) que, somada ao wellfare state europeu, acabou colocando todos estes países num dilema entre voltar a crescer e respirar, mas sem afetar o delicado nível de solvência em que se encontram. Ou seja, o excesso de direitos e encargos sociais, com sistemas previdenciários extremamente perdulários e ineficientes, acabou expondo estes países a uma situação ainda mais delicada depois da necessidade das políticas de estímulo fiscal e monetário.

Eles precisam voltar a crescer, mas como sem estes estímulos fiscais que os colocam numa situação ainda mais delicada para a travessia futura? É um verdadeiro dilema econômico.

Para piorar, neste cenário a moeda padrão da zona do euro acaba sendo colocada à prova. Nesta semana bateu US$ 1,32, ameaçando cair abaixo disto.

Na verdade, esta situação não é recente. Como vem sendo demonstrado nos últimos acontecimentos e nos dados anteriores a 2009, muitos destes países já se encontravam numa situação fiscal delicada, com dívidas e déficits ultrapassando o chamado “Pacto de Estabilidade”, criado no Tratado de Maastrich. Este determina que o déficit não deva passar de 3% e a dívida de 60% do PIB. A Grécia, por exemplo, em 2008 já possuía um déficit em torno de 7,8% do PIB, assim como a Irlanda, em torno de 7,2% e a Espanha, 4,1%. Lembremos que a Zona do Euro, sobre este tema, determina que um país possa até incorrer em desequilíbrios fiscais temporários, mas não pode mantê-los por mais de três anos, o que representaria a expulsão do Bloco.

Para piorar o cenário, todos os países da Zona do Europa “patinam” numa recessão sem fim, com o desemprego passando, em alguns casos, de 20% da PEA. Além disto, num “processo educativo”, as agências de rating já começam a se mostrar cautelosas em relação a estes países. Na semana passada, o rating soberano de Portugal passou de AA para AA-, numa perspectiva negativa em relação à sua situação fiscal delicada. Quais serão os próximos da fila? Comenta-se que os próximos a se colocarem em dificuldade na rolagem das suas dívidas serão Reino Unido e França. Estejamos atentos.

Por aqui, a ata do Copom acabou sendo o foco das atenções do mercado na semana passada.  Como sempre se mostrou enigmática, com muitos comentários pouco conclusivos e, até mesmo, confusos. Embora tenha sinalizado o aguardo dos próximos indicadores acabou mostrando-se preocupada com a evolução da demanda interna e da economia como um todo, deixando no ar a perspectiva de uma elevação forte do juro em abril.

Sendo assim, é praticamente certa a elevação da taxa básica de juros na próxima reunião do Copom, dias 27 e 28 de abril, só havendo dúvidas sobre a intensidade desta correção. Há uma divisão entre os que acreditam num ajuste de 0,5 ponto percentual e outros que apostam em 0,75 p.p..

Os dados divulgados mostram uma economia aquecida, com as vendas do comércio tendo surpreendido em janeiro, ao avançarem mais de 2% contra dezembro, a confiança dos consumidores e dos empresários em alta, assim como a produção industrial prevendo crescer mais de 9% neste ano, elevando o PIB para mais de 5% de crescimento. Assim sendo, pressões inflacionárias acabarão inevitáveis. Resta saber qual será a composição do novo BACEN depois de abril. Será que o Henrique Meirelles sairá mesmo? Tudo indica que sim, mas será que o substituto terá a capacidade e independência de resistir às pressões políticas em ano eleitoral?

Numa demonstração de que deve sair mesmo, Meirelles já tratou de anunciar um pacote cambial, para tentar desburocratizar as operações com divisas no País, visando sua maior liberalização. Por enquanto, estas medidas não devem ter maiores impactos no câmbio. Mais à frente, será inevitável alguma variação.

A partir de agora, o Tesouro passa a ter mais capacidade de pagamento de dívidas, visto que os vencimentos destas passaram de 360 dias para 750. Ou seja, mais dívidas passam a ter sua quitação previamente garantida pela compra de dólares pelo Tesouro Nacional. Ganhará, então, mais “grau de liberdade” a Fazenda para atuar no mercado de câmbio, antes uma atribuição exclusiva do BACEN. Sendo assim, tendo este mais poder para comprar divisas e sendo um importante player, o dólar tende a ser puxado para cima. Lembremos que o Tesouro também possui recursos do Fundo Soberano, cerca de US$ 9 bilhões, para operar no mercado cambial.

Mesmo assim, a capacidade do Tesouro de influenciar na cotação da moeda norte-americana ainda é limitada frente ao BACEN. Em 2009, mesmo com algumas vendas no início do ano, o BACEN comprou US$ 24 bilhões, enquanto que o Tesouro só operou com US$ 4 bilhões. Em 2007, ano de pico, as compras do BACEN chegaram a US$ 78,6 bilhões.

Aguardemos para ver como o dólar reagirá a estas operações alongadas do Tesouro Nacional.

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