Restos da campanha

Reza a lenda que José Serra, o candidato tucano derrotado nas eleições presidenciais de outubro, não perdoa o governador de São Paulo, Alberto Goldman, por ter anunciado o resultado da licitação de um trecho do metrô na semana final da campanha do segundo turno. Assuntos delicados como esse deveriam ficar para depois das eleições, para evitar ruídos políticos.

Uma denúncia de manipulação da licitação foi feita pela “Folha de S.Paulo”, que soubera do resultado muito antes da abertura das propostas e registrou o fato em cartório, e a licitação foi anulada, trazendo evidentes prejuízos políticos para Serra. Se não é verdade, é bem verossímil.

O governo, por sua vez, está revelando nos últimos dias como pensou em tudo para ganhar a eleição. Não tratou de assuntos delicados na campanha, como as reformas estruturais, e, quando o fez, foi para prometer reduzir a carga tributária. Mal se fecharam as urnas, nós os cidadãos ficamos sabendo que havia um movimento de governadores para ressuscitar a famigerada CPMF, e a presidente eleita, embora seja contra, dispõe-se a estudar as “necessidades” dos estados.

Estourou também o escândalo de inépcia do Enem, um outro tipo de trapalhada, diferente da ocorrida em 2009, mas sempre prejudicando os alunos.Sorte do governo que o Enem foi realizado em novembro, depois das eleições. Sorte, não, precaução. O Enem foi realizado em setembro em 2008 e em outubro em 2009, e este ano, alegadamente por causa das eleições, o calendário teve de ser alterado para novembro.

Como se sabia que as eleições, tanto no primeiro como no segundo turno, tinham dias marcados (3 e 31 de outubro), não havia impedimento para que o Enem fosse realizado em qualquer outro dia ou mesmo em setembro. Mas, como gato escaldado tem medo de água fria, o governo se precaveu e jogou para novembro a crise que realmente aconteceu.

Como sempre, o presidente Lula começou falando grosso, com elogios à organização do exame, e foi cedendo à opinião pública até admitir que novas provas poderão ser realizadas. E tem ainda a medida provisória dando, através do BNDES, R$ 25 bilhões para financiar o trem-bala entre Rio e São Paulo, dando como garantia as ações de uma companhia privada que ainda não foi constituída e mais um provisionamento de R$ 5 bilhões para o caso de necessidade.

Isso depois de a presidente eleita ficar a campanha inteira afirmando que o trem-bala era importantíssimo, mas não receberia dinheiro público.

O caso mais grave, no entanto, foi o do Banco PanAmericano, que o governo sabia que estava quebrado pelo menos desde agosto, devido a uma auditoria rotineira do Banco Central. O fato de ter havido uma solução de mercado, com a utilização do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para cobrir o rombo de R$ 2,5 bilhões, é louvável, mas não é exatamente correto o governo dizer que não houve dinheiro público na transação. Quando a Caixa Econômica Federal assumiu 49% do Banco PanAmericano em 2009, ele já estava quebrado, sabe-se hoje.

É estranho que a Caixa tenha investido em um banco que há quatro anos maquiava seus resultados sem perceber o que agora aparece como “indícios de crime do colarinho-branco”, na definição do Banco Central.

Mesmo que o empresário Silvio Santos perca todo o seu patrimônio, o erário público terá sofrido um baque com a queda das ações de um banco de que a Caixa Econômica não deveria ter comprado uma participação tão efetiva.

Ou houve uma inépcia muito grande das auditorias independentes e da própria direção da Caixa ou muita vontade de ajudar uma empresa em dificuldades, de um empresário muito influente nos meios de telecomunicação.

O Banco Central identificou em agosto que havia fraude nos balanços do Banco PanAmericano, e o assunto ficou sendo negociado em segredo até recentemente, com a peculiaridade de que a reta final deu-se justamente entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

A sequência do caso é muito sintomática: a fraude foi detectada em agosto; no dia 20 de setembro o empresário Silvio Santos esteve no Palácio do Planalto com o presidente Lula; e em 11 de outubro começou a negociação.

Este timing da negociação, misturado ao timing político, não diz coisas boas sobre a atuação dos envolvidos nela, e nem mesmo é verossímil que a audiência com Lula tenha sido para tratar do Teleton.

Lula diz que não é papel do presidente da República tratar de negócios de bancos privados. E tratar do Teleton é? No dia 20 de outubro, o candidato oposicionista José Serra foi agredido por um bando de petistas em Campo Grande, no Rio, quando fazia uma caminhada com seus correligionários. A certa altura do tumulto, foi atingido na cabeça por algo pesado, que lhe provocou fortes dores. Mais tarde, o artefato que atingiu Serra foi identificado como um rolo de fita.

O telejornal matinal da rede de TV SBT, no dia seguinte, exibiu uma filmagem que pretendia reproduzir a sequência dos fatos ocorridos em Campo Grande no dia anterior, mostrando que Serra fora atingido apenas por uma bolinha de papel e só colocara as mãos à cabeça 20 minutos depois, após conversar com alguém pelo telefone.

A denúncia de que o candidato da oposição armara uma farsa para tentar tirar proveito político de um tumulto insignificante foi prontamente adotada por ninguém menos que o próprio presidente da República, que passou a divulgar a versão do SBT como a verdade dos fatos.

No mesmo dia à noite, o “Jornal Nacional” demonstrou, com base em uma perícia de Molina, que o momento em que a bolinha de papel atingiu Serra é completamente distinto do outro, em que ele foi atingido pelo rolo de fita. Mas a versão da bolinha de papel foi usada até mesmo na propaganda eleitoral gratuita da campanha petista e serviu para neutralizar o provável prejuízo político que a campanha petista sofreria.

Fonte: “O Globo”, 12/11/2010

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11 comments

  1. Esse foi um dos textos mais idiotas que eu já li nos ultimos tempos. Faz parecer que o governo ja sabia que o Enem ia ter problemas, por isso passou para o mes de novembro, o que é uma grande bobagem. O fato de ter tido problema em um dos anos anteriores nao eh garantia que ira acontecer de novo. Na verdade era bem pouco provavel até.

    Quanto a bolinha de papel e a fita. Bem, nao houve fita alguma. O que o Jornal Nacional mostrou foi uma edicao manipulada de um video de celular. http://www.youtube.com/watch?v=VSQD2sRNBUc

    Graças a democratica internet, coisas como essa nao passam mais despercebidas. Claro que toda agressao deve ser repudiada, mas os dois lados usaram o factoide a seu favor, acredita quem quer, não é?

  2. fabio

    Diogo faço minhas as suas palavras,esse Merval nos tem por idiotas com sua logica rocambolesca.

  3. Cristiana Castro

    Se o Lula tivesse a metade do tempo ocioso que nossos jornalistas tem, já teríamos livros sobre o Mervalismo, o Kamelismo e o Mainardismo… Ainda bem que não tem, senão nosso Estado estaria no mesmo lugar de nossa Imprensa. Sou doida por um “emprego” desses.

  4. Rafael

    Aos comentaristas sobre a suposta farsa da Globo, só faço uma pergunta, perceberam ou não que há um CORTE na reportagem do SBT entre o telefonema e a mão na cabeça do Serra?

    Acusam a Globo de ter feito o corte entre a bobinada e as mãos na cabeça, mas IGNORAM que o SBT cortou a imagem entre o Telefonema e a Mão na Cabeça?

  5. Rodrigo

    Nossa, a tropa de choque do PT tá bem atenta! Ótimo texto Merval! Existem atualmente poucos jornalistas que ainda pensam.

  6. Sandra

    Vá ser tendencioso assim lá na caixa prego! Cheguei aqui pelo twitter, li e não gostei do estilo, muito besteirol e muita tendenciosidade para o meu gosto.
    Parece que na opinião do Merval, o Presidente Lula sabia desde antes das eleições, que a EMPRESA PRIVADA, que imprimiu o ENEM o fez com erros de impressão… Ohhhhh tem dó pessoal, tem dó !
    Fui

  7. Angelo Frizzo

    O Merval continua pensando que TODOS os Brasileiros são completamente idiotas.

  8. Alice

    Meu Deus… sobre a bolinha de papel todo já sabe que o Jornal Nacional não “demonstrou” nada, o que ele fez foi uma fraude grosseira. E o Merval continua insitindo nessa história.

  9. Cesar

    Merval, parabéns pelos seus textos, que tem demonstrado muita lucidez ao tratar de temas políticos.
    Infelizmente, o que se tem visto no país são campanhas políticas que trazem ódio e desinformação, o que impede que temas importantes para o país sejam tratados com seriedade.
    Tem gente que, até hoje, acredita na versão do SBT.
    Sugiro a estes comprarem ações do Panamericano…

  10. João Nemo

    Merval, não se preocupe com comentários da Al Qaeda petralha. Eles gemem e rosnam sempre que alguém lhes pisa o rabo. O seu texto corresponde a uma cadeia de fatos irrespondíveis e muito esclarecedores, pelo menos para quem quer ser esclarecido.

  11. fabio nogueira

    Somente a GLOBO viu o Serra ser atigindo por rolo de fita,e o interessante que nem ficou hematomas ou ferimento.

    Merval,tudo bem que você defende o Serra,mas,pega leve nas manipulaçoes,estamos cansados de ver os mesmos filmes.Serra e seus aliados foram muitos amadores,estavam com a faca e o queijo para quem sabe ganhar o segundo turno,mas,não foi fazer golpe baixo junto com a Globo e se lascou.

    ARRUMEM UM OUTRO CANDIDATO MAIS COERENTE QUE SAIBA REALMENTE FAZER POLITICA!!!!

    AÍ QUE SAUDADES DE BRIZOLA E ULYSSES!!!