Revolução Cultural no Jardim de Infância

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Quando deixei o Irã, após a “Revolução Cultural Islâmica”, achei que tudo estivesse perdido. Achei que eles conseguiriam afinal dominar toda a sociedade controlando os estudantes universitários e os submetendo à lavagem cerebral. Como eu estava errado! Uma lição valiosa que aprendi nas últimas três décadas foi a de que quando qualquer estado tenta forçar uma ideologia pela goela do povo, conseguirá apenas o efeito contrário ao desejado para o estado, as pessoas apenas vomitarão a ideologia do estado quando forçadas a engoli-la.

Lembro de perguntar a um amigo etíope, que viveu sob um governo marxista na Etiópia, se ensinavam todas aquelas coisas marxistas-leninistas nas escolas. Ele balançou a cabeça como se eu o fizesse lembrar de um assunto doloroso e me disse, “Todo dia tínhamos que ficar depois das aulas para estas aulas ideológicas especiais e coitada da criança que fizesse alguma pergunta que prolongasse essas sessões torturantes: nós o pegaríamos depois da aula e o moeríamos de pancada, porque queríamos ir à praia ou ao cinema após a escola, e a última coisa que queríamos era ficar ouvindo todo aquele blablablá um minuto a mais do que o necessário”. Por outro lado, no tempo do Xá, ler literatura marxista era proibido, e mesmo assim os jovens iranianos faziam de tudo para conseguir uma cópia do Manifesto Comunista. A ilegalidade dele só o tornava mais excitante, e ter lido tal literatura era como ostentar uma medalha de honra intelectual.

A República Islâmica nunca aprende, porém. Na verdade, toda vez que há um sentimento de desespero e desolação, sempre se pode contar com o regime disparando um tiro no próprio pé. Semana passada, o Ministro do Bem-Estar Social, amigo e capanga de Ahmadinejad, e também multimilionário da noite para o dia, Sadegh Mahsouli, anunciou que apenas jardins de infância que tenham valores islâmicos como base do currículo receberão empréstimos e bolsas do governo, enquanto jardins de infância que ignoram ensinamentos islâmicos serão severamente tratados. E que valores islâmicos especificamente estão no topo da lista de prioridades do Ministro Multimilionário? O Sr. Mahsouli quer que os jardins de infância ensinem às crianças sobre martírio e os criem como aspirantes a mártir!

Então, após o fracasso da “revolução cultural” nas universidades e escolas, adivinhe o que vai acontecer nos jardins de infância?

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Crianças iranianas trabalhando duro em fábricas de tijolos enquanto milionários instantâneos como o Ministro Mahsouli, do Bem-Estar Social discursam sobre o que deve ser ensinado nos jardins de infância.

Publicado no blog de Potkin Azarmehr
Tradução: Anna Lim (annixvds@gmail.com)

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