Ribeiro é ministro ou está ministro?

Houve mais de um momento na história em que o governo, para acalmar a ira da intelectualidade que andava irritada com a situação política, foi buscar um nome respeitado para comandar a Educação, uma área especialmente sensível — e àquela altura bombardeada por críticas de tudo quanto é lado. Um desses momentos se deu em 1979, quando o general João Figueiredo convidou para comandar a pasta o respeitado professor Eduardo Portella. Em pouco tempo, o país percebeu que a presença do nome ilustre não trouxe a esperada mudança de rumos na política educacional e que Portella, sozinho, não conseguiria fazer tudo o que dele se esperava. O próprio Portella se deu conta da incapacidade de agir diante de uma burocracia mais forte do que o prestígio de seu nome. E cunhou uma frase antológica, mais tarde utilizada por todos os que se sentem desconfortáveis na cadeira de ministro. “Eu não sou ministro, estou ministro”, disse pouco antes de novembro de 1980, quando deixou o cargo e voltou para a academia. No ano seguinte, ele conquistou a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras, que ocupa até os dias de hoje.

Depois da saída do atabalhoado Cid Gomes, o ministério tornou-se objeto de cobiça dos partidos não porque é importante para o país. Mas porque administra o segundo maior orçamento de toda a Esplanada

Esse fato histórico é lembrado aqui a propósito da nomeação do filósofo Renato Janine Ribeiro para o posto de ministro da Educação pela presidente Dilma Rousseff. Pela biografia, pelo currículo e pela trajetória de mais de 20 anos como professor de ética da Universidade de São Paulo, Ribeiro está mais do que preparado para assumir o desafio de implantar no Brasil uma nova política educacional. Resta saber se terá forças, apoio e verba para atender a uma comunidade acadêmica que, nos últimos anos, foi inflada com a criação de mais universidades do que o dinheiro disponível no orçamento é capaz de financiar. E que, além disso, está tão sujeita como qualquer outra à política do “toma-lá-dá-cá” que tem marcado o relacionamento dos governos petistas com o Congresso Nacional. Depois da saída do atabalhoado Cid Gomes, o ministério tornou-se objeto de cobiça dos partidos não porque é importante para o país. Mas porque administra o segundo maior orçamento de toda a Esplanada.

A grande questão é que Ribeiro, assim como aconteceu com Portella, chega ao ministério com a missão de, mais do que resolver os problemas da educação, emprestar credibilidade ao governo inteiro. E isso — tanto agora como em 1979 — está muito acima das forças dele ou de qualquer outro que ocupe aquela cadeira. Em outras palavras, a chegada do novo ministro não resolverá, por si só, o problema existencial de um governo que, de um lado, endurece o jogo e corta todas as despesas que pode para equilibrar as contas públicas; mas que, do outro, mantém o discurso de que continuará gastando dinheiro a rodo para atender a todas as demandas que criou. Para o bem do país, seria ótimo que alguém com o currículo de Ribeiro tivesse à frente da Educação uma carreira tão exitosa quanto teve na sala de aula. A pergunta é: será que dará conta do recado ou que, a exemplo do antecessor Portella, logo passará a demonstrar desapego ao cargo afirmando que não é ministro, mas está ministro?

Fonte: Hoje em Dia, 29/03/2015.

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1 comment

  1. Marco Balbi

    Vá escolher mal assim lá na Coréia do Norte! Qual é a expertise do filósofo na complexa área da educação, além dos manjados chavões marxistas! Me engana que eu gosto!