Ricardo Amorim: Um país sem governo

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Não, não me refiro à atual situação do Brasil, onde a corrupção em escalas inimagináveis, envolvendo o próprio presidente Temer, acabou com as condições de governabilidade e paralisou o Congresso e o País. Aliás, exatamente como já havia acontecido com sua antecessora, Dilma Rousseff.

Trata-se de um tema ainda mais importante para que o combate à corrupção seja bem sucedido e para que um país possa se tornar mais rico e mais justo: uma brutal mudança de mentalidade na relação da sociedade brasileira com o Estado.

Imagine que o Brasil não tivesse governo. Se não houvesse governo, não haveria orçamentos superfaturados de obras públicas. Marcelo Odebrecht e outros empreiteiros não teriam por que nem como subornar políticos e agentes públicos, nem esses teriam como achacá-los.

Se não houvesse governo, não haveria bancos estatais, como o BNDES. Sem o BNDES, Joesley Batista teria que buscar outras fontes de financiamento para a JBS, e não teria razão para dar mais de R$ 1 bilhão a 1.829 políticos, incluindo o presidente Temer e os ex-presidentes Lula e Dilma.

Sem governo, a Petrobras não seria estatal. As decisões da empresa não teriam motivações políticas, seriam motivadas pela busca de resultados para a empresa e seus acionistas. Dezenas de bilhões de reais desviados por corrupção não teriam ido para o ralo.

Se não há governo, políticos não teriam como comprar o apoio de setores da sociedade com programas de benefícios a grupos específicos como Bolsa-Família, isenções fiscais, linhas de crédito subsidiado e outros, devolvendo a alguns uma boa parcela do dinheiro que tomaram de todos nós através de impostos.

OK, você deve estar se perguntando, e como garantir segurança, educação básica e saúde de qualidade a todos, além de combater a miséria, sem governo? O ponto é exatamente este. Para ter foco e dinheiro para isso, para não corromper e ser corrompido, para não sufocar a produção e o emprego no Brasil com impostos extorsivos e para executar bons serviços públicos, o governo não pode e não deve fazer todo o resto.

A essência da corrupção brasileira está na promiscuidade entre o Estado e a iniciativa privada. Quanto maior o Estado, maior a promiscuidade. Um Estado agigantado que distribui “favores” é fonte constante de corrupção. Quanto menos o Estado se envolver diretamente na economia – apenas regulando seu funcionamento – menos corrupção e mais riqueza haverá. Para ser máximo em eficiência, promoção de desenvolvimento e imune à corrupção, o Estado tem de ser mínimo em tamanho.

Fonte: “Isto é”, 2 de junho de 2017.

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1 comment

  1. Marco Aurélio Matos

    O estado regulando o funcionamento da Economia é a pior forma de intervenção! Não tem como dar certo ! Os reguladores venderão sua influência pelo melhor preço que encontrarem ! Estado deve ser totalmente separado da Economia! E de preferência bem insignificante …