Domingo, 4 de dezembro de 2016
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Rio (III): hotelaria e serviços

Dou continuidade com este de hoje ao conjunto de 12 artigos tratando de questões relacionadas com o Rio de Janeiro, visando à reflexão acerca de que cidade queremos para depois dos Jogos Olímpicos de 2016. Nos dois primeiros, foram abordadas a necessidade de fazer vigorar o respeito à legislação (com o fim da complacência com a ilegalidade que durante muito tempo foi certa característica local) e a importância de se prezar mais a procura de um padrão de excelência, especialmente no fornecimento dos serviços. Nessa linha, vamos hoje abordar o tema da hotelaria e dos serviços.

É essencial que os setores ligados ao turismo se conscientizem de que precisam investir firmemente em treinamento

Os comentários que serão feitos valem não apenas para o Rio, sendo referentes a problemas que são em boa parte nacionais, mas são um tema inevitável quando se pensa no que a cidade é hoje e no que deveria ser para aspirar a se situar no topo das metrópoles conhecidas como marcas globais, tais como Nova York, Tóquio, Londres ou Paris.

O preço da diária de um hotel tende a ser uma função, principalmente, dos seguintes elementos:

1) O valor dos custos incorridos para o funcionamento do local;

2) A eficiência gerencial (o preço de um empregado pode ser X, mas ele pode ser mais eficiente em um hotel do que em outro, dependendo da gestão do negócio);

3) A taxa de ocupação (um hotel pode ter um certo contingente de empregados, mas quanto eles custarão por habitação dependerá de que proporção do mês esta estiver ocupada); e

4) A carga tributária.

Qualquer pessoa que tenha tido a possibilidade de viajar para o exterior nos últimos dez ou 15 anos deve ter constatado que a hotelaria no resto do mundo tem ficado bem mais em conta que a hotelaria nacional. É possível se hospedar fora em excelentes hotéis, por preços muitas vezes expressivamente inferiores aos cobrados por hotéis de três estrelas no Brasil.

O componente (1) é explicado pela macroeconomia. Dólar barato e salários pressionados por um mercado de trabalho caracterizado pelo baixo desemprego geraram na década passada remunerações elevadas em US$ e, contra isso, o hotel e as autoridades locais não tinham muito a fazer.

Já no caso dos componentes (2) a (4), há um espaço de atuação para que os representantes do setor e as autoridades trabalhem conjuntamente visando a uma melhoria do ambiente para tentar melhorar as condições de competitividade e atratividade para os hotéis.

Aqui cabe um parêntese: note o leitor como a macroeconomia se “infiltra” nessa discussão. Não há como dissociar a discussão da carga tributária da questão fiscal geral do país. É que, para poder reduzir os tributos, na outra ponta é necessário ter um maior rigor sobre os gastos. E, nesse ponto, o município está sujeito aos mesmos fatores de rigidez que afetam a despesa pública em geral, com destaque para a generosidade de nossas regras de aposentadoria, que estão estrangulando a capacidade das administrações de implementar políticas públicas sem ser mediante uma carga tributária exorbitante.

Além do preço, há duas outras grandes questões levadas em conta pelo turista na hora de escolher seu destino. A primeira é o conjunto de atributos do lugar e a outra é a qualidade dos serviços.

Engana-se quem pensa que o turista de outros países está louco por conhecer o Rio. Mesmo na Copa do Mundo, que atraiu pessoas do mundo inteiro, uma grande proporção do fluxo foi de visitantes latino-americanos. O europeu ou americano de maior poder aquisitivo pode, sim, pensar no Rio, mas nossa cidade concorre com a própria Europa ou com os EUA — ambos com lugares muito bonitos para conhecer, em muitos casos com hotelaria barata. Mesmo em termos de praia, a Ásia está atraindo com preços muito baixos turistas levados pelas suas belezas naturais, tão exuberantes quanto as nossas. O Rio é bonito, mas a segurança continua sendo um problema. A ideia ufanista de que o turista corre risco de ser assaltado no Rio como em qualquer grande capital do mundo é constrangedoramente ridícula.

Por último, a péssima qualidade dos nossos serviços abre uma avenida de possibilidades a explorar. É essencial que os setores ligados ao turismo se conscientizem de que precisam investir firmemente em treinamento. É preciso fortalecer a cultura de servir adequadamente ao cliente, que no Rio está apenas engatinhando.

Fonte: O Globo, 10/08/2015.

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