Domingo, 4 de dezembro de 2016
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Rio (VI): Expressões culturais

Este é o sexto encontro com o leitor de uma série para pensar algumas questões da cidade, visando a uma reflexão acerca do que o Rio pode aspirar a ser no longo prazo, muito além das Olimpíadas de 2016. Nesse sentido, já tratamos aqui dos problemas associados à nossa complacência, à necessidade de desenvolver uma cultura de excelência, ao tema da baixa qualidade de nossos serviços, à governança da Região Metropolitana e ao policiamento. Hoje vamos tratar de assunto mais ameno: o potencial de aproveitamento de nossas expressões culturais.

Foi meu amigo Mauro Osório, especialista em temas das economias carioca e fluminense, que me chamou a atenção, em seu capítulo publicado no livro que organizei sobre o Rio (“Depois dos jogos — Pensando o Rio para o pós-2016”, Editora Campus), para o chamado “turismo de convivência”, associado não apenas às belezas naturais, como também a certo “gosto pela festa”, em contraposição ao “turismo de enclave”. Nas palavras de Mauro, ao se referir ao turista do primeiro grupo, este tipo de visitante inclui profissionais liberais, pesquisadores e estudantes, que “não gostam dos produtos ‘enlatados’ do turismo de massa (voos charter e pacotes) nem de destinações que são operadas como megaempreendimentos. Preferem pesquisar e construir o seu próprio plano de férias, considerando variáveis como cultura, entretenimento e experiência; destinações onde a vida e a espontaneidade local não são totalmente desfiguradas pela indústria turística; locais com diversidade de ofertas culturais, artísticas, eventos e museus… e, entre outros aspectos, gostam de descobrir a realidade que se esconde sob clichês e estereótipos”.

Lembrei-me disso meses depois de ler esse texto, quando tive a oportunidade de conhecer um lugar pouco comum no roteiro da maior parte dos turistas brasileiros que frequentam a Europa: Luxemburgo. Estava com minha esposa e passamos uma belíssima tarde assistindo, numa das praças da cidade e sem pagar um centavo, a uma série de espetáculos ao ar livre — programados pelas autoridades locais — de diferentes manifestações artísticas. Assim, por exemplo, às 14h30m, uma dupla de dançarinos dançou um baile típico; a partir das 15h, um palhaço divertiu a criançada por meia hora; às 15h30m, um malabarista fez maravilhas com um conjunto de objetos; às 16h, apareceram três acrobatas fazendo estripulias no ar; etc. Isso se repetiu nos dias seguintes, seguindo um calendário distribuído pela Oficina de Turismo local e que poderia ser obtido na portaria de qualquer hotel da cidade.

Mais do que o custo financeiro, é preciso pensar principalmente na coordenação e organização de atividades com as devidas adaptações à realidade local

Fiquei pensando, então, no potencial que nossa cidade teria para propiciar esse tipo de sensação de bem-estar a quem passa alguns dias aqui, vindo do exterior, além de, obviamente, ser uma excelente oportunidade de lazer também para quem mora aqui. Mais do que o custo financeiro, é preciso pensar principalmente na coordenação e organização de atividades como as citadas, com as devidas adaptações à realidade local, desde que, naturalmente, as autoridades zelem para que tanto o cidadão como o turista se sintam seguros e não corram riscos de serem assaltados ao relaxar e “baixar a guarda”.

Imagine o leitor como a vida do Rio seria rica se tivéssemos um calendário de eventos onde, por exemplo, toda sexta de noite no local X, sábado de certa hora a outra no local Y e domingo no local Z, o morador da cidade e o turista soubessem que em tal lugar estará tocando um grupo de chorinho ou em outro lugar iria “rolar um sambinha”. O que não falta na cidade são grupos musicais, que, a um custo relativamente barato, em troca de divulgação, poderiam participar desse empreendimento. Mesmo que para o estrangeiro possa existir a barreira da língua, será difícil um turista não se encantar com a possibilidade de ficar uma ou duas horas vivenciando esse clima agradável, na Lapa, em Ipanema ou em Santa Teresa. Com uma eficiente articulação com o comércio local — beneficiário óbvio da maior movimentação de gente em torno desses eventos, nos bares e restaurantes adjacentes — seria possível que alguns grupos de empresários do ramo “adotassem” esses grupos, assim como certas áreas geográficas da cidade recebem melhorias patrocinadas por entidades ou empresas mediante convênios específicos. Vale a pena pensar no assunto.

Fonte: O Globo, 9/11/2015

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