Rock in Rio, FIES e as políticas mascaradas de “benefícios”

No famoso livro de Philip Kotler (“Administração de Marketing”, Pearson Education), considerado a “Bíblia do Marketing”, Kotler diz que “No marketing, as percepções são mais importantes do que a realidade, visto que é a percepção que de fato influencia o comportamento de compra do consumidor”.

A verdade dessa afirmação se dá pelo fato de que aquilo que você percebe é aquilo que você toma como real e é isso que faz com que o consumidor compre um determinado produto ou serviço. Essa afirmação de Kotler, no entanto, não tem a pretensão de dizer que, quando um produto ou serviço está sendo vendido, ele não precisa ser aquilo que aparenta ser. Afinal de contas, por mais que isso funcione para motivar os clientes a fazerem uma compra por impulso, isso é algo que não se sustenta a longo prazo, já que o consumidor iria perceber essa discrepância mais cedo ou mais tarde.

No entanto, o mesmo nem sempre acontece quando se trata de “vender ideias” – que é o que acontece na política.

Quando você transmite uma ideia falha, cuja percepção não está de acordo com a realidade, para uma multidão de seguidores que abraçam essa ideia, nem sempre será possível enxergar as falhas e incoerências que estão contidas nela, pois o cenário em que está inserido pode ser um pouco complexo para ser entendido em uma avaliação rápida e simplista.

É exatamente isso que acontece quando analisamos uma série de propostas cujo objetivo principal seria o de melhorar a vida das pessoas que tem menos poder aquisitivo.

Recentemente, tivemos um caso envolvendo o Rock in Rio sobre a “lei da meia-entrada” onde o empresário Roberto Medina declarou:

“Para o povo que nós (brasileiros) somos, o festival é caro sim. A maioria da população é pobre. Mas pela quantidade de shows, tecnicamente a entrada deveria custar o dobro. Não custa isso porque bancamos boa parte das despesas com o dinheiro dos patrocinadores. Também poderíamos cobrar menos que 455 reais se não houvesse a exigência da meia entrada“.

Na prática, o que acontece com o Rock in Rio é que, por causa das políticas de meia-entrada, o evento precisa aumentar o valor total do ingresso para que “a conta possa fechar” no final, mesmo tendo muitas pessoas pagando a meia-entrada.

No geral, isso é entendido por muitos como um benefício aos jovens, porém, na prática, o jovem estudante universitário no brasil de hoje, representa apenas uma pequena parte dos jovens brasileiros, já que a maioria não ingressa em nenhuma faculdade – e muitos dos que ingressam ainda vivem com os pais e não precisam trabalhar para se sustentar.

Ou seja, os outros jovens – os de classe baixa – que precisam trabalhar e não tiveram condições de fazer faculdade, tem que pagar o valor do ingresso inteiro que agora é muito mais alto devido a existência da meia-entrada.

Isso acontece no Rock in Rio, com a lei da meia-entrada, mas acontece em dezenas de outras propostas que, em teoria, deveriam beneficiar os mais pobres mas que, no fim das contas, acaba prejudicando mais ainda.

Na Política, quando você defende uma bandeira, basta você fazer com que alguém acredite que as propostas que você tem estão ali para defender essa bandeira que você jurou defender, mesmo que a realidade demonstre o exato oposto do que seria aquilo que você defende. E isso acontece em muitos outros casos dos quais não paramos para pensar mas que, hoje em dia, já podemos ver os efeitos práticos e nocivos que tais políticas causaram.

Como um outro exemplo parecido ao do Rock in Rio, temos o FIES que, no início desse ano, foi apontado pela Squadra Investimentos como o maior responsável pelo aumento das mensalidades nas universidades nos últimos anos:

“Através do portal de acesso à informação do governo federal, já conseguimos identificar aumentos de dois dígitos para alunos Fies de alguns importantes grupos educacionais. Desconhecemos, no cenário atual da economia brasileira, indústria que esteja conseguindo repassar preços a seus clientes nessa magnitude, sob condições normais de mercado”

Em outro ponto:

“Tamanha lucratividade foi alcançada, na nossa visão, pelo fato de as companhias terem sido capazes de cobrar, através do Fies, mensalidades fora da lógica de mercado de seus alunos ao longo dos últimos anos, incluindo reajustes anuais na casa de dois dígitos, recorrentemente. O governo Dilma, desorganizado e com interesses eleitoreiros, pagou a conta, amparado em uma contabilidade inadequada recentemente criticada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Ao aluno, ‘inelástico’ por não estar contribuindo com nada e muitas vezes desinformado sobre o tamanho real da dívida que está contraindo, restará o calote”

Imagine o seguinte cenário hipotético:

Eu defendo a bandeira de que os mais pobres deveriam ter mais acesso as universidades e, juntamente com isso, crio um sistema de financiamento bancado pelo governo (que é o FIES) e lhe digo que, como eu me preocupo de verdade com você, agora você poderá pegar um financiamento para pagar a faculdade que você sempre sonhou e que só precisará pagar quando você terminar a sua faculdade!

Parece genial, não é mesmo?

Infelizmente, isso não é genial e só é usado como troca para sustentar uma pretensa ideologia que diz se preocupar com aqueles que têm menos recursos para sobreviver. Eu te digo que estou te dando a oportunidade de fazer uma faculdade e você, feliz por acreditar que alguém está se preocupando com você, vai lá e passa a apoiar esse político, o seu partido e as suas ideias.

Na prática, o que acontece é muito simples. As universidades passam a encarar o mercado de outra forma!

Quando o governo passa a oferecer esse tipo de financiamento, as universidades sabem agora que não precisam se preocupar tanto com o valor das mensalidades pois o aluno que está entrando agora está se preocupando muito pouco com o que ele vai ter que pagar um dia.

Se as pessoas já se preocupam menos quando usam um cartão de crédito (que vence no mês seguinte) imagine uma conta que só vai vencer daqui a alguns anos!

Devido a isso, o que aconteceu na prática foi que as universidades passaram a se adaptar a essa nova realidade, por contar agora com um dinheiro que seria dado pelo governo (pois esse aluno, quando começar a pagar, estará pagando ao Estado e não a universidade, pois essa já recebeu todo o valor desse curso anteriormente).

O custo dos cursos universitários aumentou muito por consequência disso, prejudicando não só a pessoa que vai ter que pagar esse curso no futuro (que, além de tudo, pagará com juros) como também aquela pessoa que, mesmo com muita dificuldade, conseguiu entrar na faculdade e pagar essa mensalidade sem utilizar dos recursos do FIES.

Aliás, muitas pessoas que até tinham condições de fazer isso – porque se apertavam um pouco, financeiramente falando – acabaram tendo que optar pelo FIES devido aos custos da universidade estarem muito altos, forçando essas pessoas a ter de conseguir um FIES para conseguir cursar uma faculdade.

No fim das contas, só a classe mais alta da sociedade conseguia pagar por isso sem dificuldade e todo o resto acabou pagando mais caro por isso do que gostaria (seja pagando agora ou mais tarde).

São inúmeros os exemplos como esse em nosso país, onde uma proposta parece atender as demandas reais da sociedade mas que se mostram totalmente simplórias quando visto à luz dos fatos, pois se tratam apenas de uma percepção irreal de algo que não se concretiza na realidade.

Entender as consequências da intervenção do Estado no mercado é a chave para entender que esse tipo de atitude causa benefícios aparentes mas que não são reais, quando se olha para as consequências disso na realidade.

O que temos é uma percepção irreal de como as coisas realmente são. No todo, ninguém está realmente sendo ajudado com isso, entretanto, quando olhado de maneira simplista, parece que estão.

Entretanto, a tendência – se as pessoas não passarem a enxergar as coisas como elas realmente são – é de que tudo isso continue por muito tempo pois, da parte dos políticos, pouco importa se eles entendem as consequências disso ou se fazem por ignorância. Fato é que eles o fazem porque isso atende as “bandeiras” que eles defendem e os mantém eleitos (junto com seus partidos) pelo maior tempo possível.

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