A cacofonia pareceu ser a característica principal desta eleição. Os candidatos mais pareciam preocupados com as pesquisas de opinião do que com propostas concretas para o país. Não podemos esquecer que pesquisas medem a percepção, o que não significa dizer que a percepção coincida com a realidade.

A discussão sobre a autonomia ou independência do Banco Central (BC) é um caso ilustrativo. Trata-se, para dizer em linguagem simples, do controle social da moeda, de impacto direto sobre a inflação, cujo aumento incide no poder de compra dos cidadãos. Quando se discute a autonomia ou independência do BC não se está falando de banqueiros, mas da melhor modalidade de controle da moeda. Conviver com inflação alta é um grande desserviço para todo o país.

Esse tema, porém, terminou ocupando boa parte da discussão econômica, como se houvesse aí uma repercussão eleitoral de monta. Se repercussão eleitoral houve foi a de confundir, na propaganda, independência com o interesse dos banqueiros. No governo Lula foi um banqueiro, Henrique Meirelles, proveniente do Banco de Boston, que esteve à frente da instituição. Em todo caso, se houve inflexão do governo Dilma foi em relação ao governo Lula, que seguiu o último período do governo FHC.

Não podemos ser reféns de disputas ideológicas ultrapassadas

A propaganda eleitoral tornou mais aguda a miopia que distorce a realidade. Cada candidato só parecia ter temor de apresentar seus programa de governo – como se propostas sérias fossem uma espécie de nome feio que deveria ser evitado. A exceção foi Marina Silva, que ousou fazê-lo, mas teve logo de se retratar em alguns pontos, além de ser obrigada a dar explicações esdrúxulas sobre outros, particularmente relativos ao agronegócio. Surpreendentemente, no último debate da Globo chegou a dizer que seu programa era muito parecido com o de Luciana Genro!

O Brasil precisa saber quais são as propostas que incidem diretamente sobre seu futuro. Rumos devem ser sinalizados, sob pena de o segundo turno ser uma repetição enfadonha do primeiro. Não é o bem de cada partido que nos interessa, mas o do país.

Outro exemplo de distorção consistiu na discussão sobre a regulação dos meios de comunicação, alguns pensando na regulação da imprensa escrita. É como se a imprensa e os meios de comunicação fossem culpados pela corrupção vigente. Noticiar e investigar fazem parte da imprensa livre em qualquer país democrático digno de respeito, com a ressalva dessas democracias de fachada de tipo bolivariano – Venezuela, Equador, Argentina.

Ora, o governo Lula tomou uma série de iniciativas a esse respeito, em distintos tipos de conselhos propostos, nenhuma concluída ante a forte resistência da sociedade. O governo Dilma foi exemplar nesse sentido, não tomou nenhuma iniciativa que se aproxime de qualquer controle ou censura. A fervura eleitoral, contudo, pôs essa questão como devendo nortear seu segundo mandato caso eleita, o que é um evidente contrassenso.

Acontece que o PT continua a adotar uma política esquizofrênica, prejudicando o debate. Na prática, os governos Lula e Dilma adotaram, em suas diferenças próprias, e também em suas diferenças e identidades com o governo FHC, políticas de tipo social-democrata no sentido europeu do termo. O anticapitalismo foi sendo progressivamente abrandado, com a aceitação do Estado Democrático de Direito, das liberdades fundamentais e o reconhecimento, mesmo que parcial, da economia de mercado. Digo parcial porque um capitalismo de compadrio, de tipo corporativo, continuou a vigorar, o que não seria uma diferença essencial de outros países capitalistas no mundo.

A questão é outra. Na teoria o PT permanece um partido “socialista”, de inspiração revolucionária, procurando se afirmar contra a economia de mercado. A simpatia pelo socialismo do século 21 seria uma ilustração desse atraso teórico. Na disputa eleitoral aparece esse ranço, que contradiz a prática de seus próprios governos. Ou seja, na prática, os governos petistas reconhecem as virtudes do capitalismo, sabem que nada há além dele, salvo o autoritarismo bolivariano e o totalitarismo comunista; na teoria, contudo, o socialismo continua válido como se fosse um reino de Deus imune às vicissitudes da História, do comunismo e do “socialismo real”. Urge, nesse sentido, que o PT faça uma adequação de sua teoria à sua prática de governar. A revisão doutrinária e uma prática social-democrata sem entraves muito bem fariam ao país.

Entretanto, o debate eleitoral é frequentemente permeado por falsos problemas, da ordem do discurso, que não guardam nenhuma relação com a prática real. As privatizações, outro exemplo, volta e meia voltam ao debate como se fossem uma real questão do país. Trata-se, na verdade, de uma falsa questão, mas o que conta são as repercussões eleitorais.

Elas foram um grande sucesso. Basta pensarmos no desenvolvimento da telefonia, com celulares ao alcance de toda a população. Telefones, no passado, eram objetos de luxo, declarados no Imposto de Renda. Alguém ousaria fazer isso hoje? A siderurgia foi outro êxito, com grandes empresas sendo hoje players internacionais, pagando impostos que a todos beneficiam, o que antes não acontecia: eram sugadoras de recursos públicos.

Aécio Neves, com razão, resgatou o legado de Fernando Henrique Cardoso que, nesse quesito, foi reconhecido na prática pelos governos Lula e Dilma. Nenhuma privatização foi revertida, apesar da ferocidade discursiva de alguns. O governo Dilma está, agora, avançando na privatização de aeroportos, portos e rodovias. Há uma pauta suprapartidária aqui presente.

Seria da maior importância uma maior honestidade no debate e, sobretudo, a sinalização de rumos para o Brasil. Não podemos ser reféns de disputas ideológicas ultrapassadas.

Fonte: O Globo, 06/10/2014.

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