Como é que pode?

O Congresso norte-americano aprova o pacote de resgate do setor financeiro e a bolsa cai?

O desastre das bolsas no início da semana passada havia sido atribuído à derrota do pacote na Câmara dos Representantes (deputados). Logo, quando a Câmara refez sua posição, assustada com o tamanho da crise, as bolsas deveriam fazer o caminho inverso, certo? Parece, mas não é simples assim.

Os US$ 700 bilhões postos à disposição do Tesouro americano para comprar papéis podres e capitalizar os bancos são uma arma poderosa e essencial. Sem ela o Tesouro não teria como evitar uma quebradeira de bancos e o desaparecimento, por um longo tempo, do crédito às pessoas e empresas, muitas das quais também quebrariam. Por isso a derrubada do pacote levou à porta do inferno.

Mas ter a arma não garante que ela será bem utilizada nem que seus resultados virão rapidamente. Como disse o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, na sexta-feira, o pacote é um “passo crítico”, mas um passo.

O problema maior – a recessão -, conseqüência da crise do crédito, mostra sua cara a cada dia nos EUA. Na quarta-feira, registrou-se queda nas vendas de casas, a maior em 17 anos. Na quinta-feira, queda de 30% nas vendas de automóveis. Na sexta-feira, a notícia da eliminação de 159 mil empregos em setembro.

Isso quer dizer que, mesmo com uma boa administração da crise, o que já se perdeu de crédito e capital no sistema financeiro basta para impor uma forte desaceleração.

De todo modo, a semana terminou melhor, mas muito melhor do que começou. Agora, o Tesouro e o Fed têm instrumentos para atacar a crise de crédito de maneira abrangente. Mas não espere que sua carteira de ações volte ao que era em poucas semanas. Uma parada nas perdas estará de bom tamanho.

Cortando gastos – O governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, foi o primeiro a reagir à crise econômica, que se aproxima do Brasil. Baixou decreto congelando os novos gastos. Está proibido criar despesas, ou seja, iniciar obras e contratar pessoal. Qual é a lógica?

Governos estaduais, prefeituras e o governo federal se beneficiaram, de 2004 para cá, de um extraordinário crescimento de arrecadação de impostos. Esse ganho de receita decorreu do crescimento econômico acelerado combinado com um sistema tributário que pesa sobre os setores mais dinâmicos. Por exemplo, automóveis. No carro o consumidor já paga cerca de 40% de impostos. E mais um tanto no financiamento.

Houve uma explosão na telefonia celular, cuja carga tributária também passa dos 40%.

Por isso a arrecadação cresce mais que a economia. De janeiro a agosto deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado, o produto interno bruto (PIB) cresceu 12,5% em valores nominais (sem descontar a inflação). A receita total do governo federal cresceu 18%.

Essa forte expansão da receita já dava sinais de esgotamento mesmo antes da explosão da crise financeira americana. Agora é certo que haverá uma desaceleração da economia mundial, incluindo o Brasil. Menos crescimento, menos receita, com impacto maior no ano que vem.

Para a maioria dos governadores, a ficha ainda não caiu. Todos prepararam projetos de orçamento para 2009 antes da crise. Mas apenas Paulo Hartung se adiantou e já fez a revisão dos números, proibindo a contratação de gastos novos.

Exagero? Prevenção, diz ele. Se a queda na arrecadação for muito forte, o governo estará preparado. Se a coisa não for tão feia quanto parece, será mais fácil retomar os gastos.

O desastre é contratar as obras, contratar pessoal e, de repente, cair a receita. O governo será obrigado a buscar financiamento num momento de dinheiro curto e caro.

Bem-vistas as coisas, todo o setor público deveria iniciar já um processo de contenção dos gastos. Na verdade, deveria ter contido o gasto já no período de bonança. Deveria ter feito mais poupança e eliminado dívidas, e não ter promovido uma farra de gastos, como fizeram governos federal e estaduais.

O governo federal, por exemplo, contratou pessoal e concedeu aumentos para os próximos anos, contando com uma constante expansão das receitas.

No agregado, eis o ponto: na crise, o Brasil todo terá de consumir menos porque terá menos renda. Quanto menos o governo consumir, mais sobra para as pessoas e empresas.

Casas nos EUA – Fiz uma confusão danada no artigo aqui publicado na semana passada (Em plena crise, 6 milhões de casas novas). Misturei casas prontas com residências em construção e, no total das vendas, misturei novas e usadas.

Eis os dados corretos, com os pedidos de desculpas: as famílias americanas compraram, em agosto, 39 mil casas novas, o que dá um valor anualizado de 468 mil. A construção de casas – obras em andamento – bateu 895 mil unidades/ano. O início de obras de novas casas unifamiliares chegou a 630 mil, sempre em valores anualizados. Permissões para a construção de casas e apartamentos (plantas aprovadas), indicador de atividade futura, foram para 854 mil.

Reparem de novo: a crise financeira, também chamada crise das hipotecas, explodiu em agosto do ano passado. Os preços das casas estiveram em queda, juros em alta, financiamentos restritos e inadimplência. Mesmo assim, as famílias americanas compraram mais de 600 mil casas nesse período. O número de residências em construção esteve acima do milhão. E, finalmente, as vendas de imóveis usados estiveram acima dos 5 milhões.

A idéia geral do artigo está de pé. O sistema financeiro produziu abusos, mas também financiou casas para milhões de famílias.

(O Estado de S. Paulo – 6/10/2008)

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