Samuelson, o economista dos economistas

Apesar de impopular, pois a lógica está associada à filosofia de Aristóteles, minha tese fundamental é que a lógica e a matemática são a mesma coisa”, escrevia Bertrand Russell em “Princípios de matemática” (1903). Filósofo e matemático dos mais notáveis no século XX, Prêmio Nobel em 1950, Russell considerava John Maynard Keynes “a mente mais clara e afiada que já conhecera”.

O brilhante Keynes, por sua vez, considerava David Ricardo o mais aguçado intelecto entre todos os que se interessaram por assuntos econômicos. Seu “Princípios de economia política e tributação” (1817) é celebrado pela teoria da vantagem comparativa para explicar o comércio internacional e pela teoria do valor trabalho que tanto inspirou Karl Marx.

Pois bem, fustiga o enciclopédico Paul Samuelson (1915-2009), Prêmio Nobel de Economia em 1970: “Minha avaliação da inteligência e criatividade de Ricardo não é tão entusiástica quanto a de Keynes. E, do ponto de vista teórico, Marx é um pós-ricardiano menor.”

O formidável Schumpeter considerava Walras o maior economista de todos os tempos. O extraordinário Samuelson aprova, recorrendo a uma observação de Lagrange: “Existe apenas um sistema do mundo físico, e foi Newton quem o descobriu. Da mesma forma, existe apenas uma grande formulação de equilíbrio geral no sistema econômico, e foi Walras quem a elaborou.”

Assim era Paul Samuelson, o economista dos economistas. “Nesta época de especialização, eu talvez seja o último dos generalistas”, ponderava o economista que me influenciou extraordinariamente. Para Samuelson, a matemática era apenas uma linguagem, mas era a linguagem da ciência. Uma ferramenta indispensável da metodologia científica, que deveria ser também aplicada às ciências sociais.

Seu clássico “Fundamentos da análise econômica” (1947) demonstrava como “a teoria da produção, o comportamento do consumidor, o comércio internacional, as finanças públicas, as flutuações cíclicas — todos esses campos aparentemente distintos — exibiam estruturas matemáticas semelhantes, indicando uma teoria geral subjacente que explica e unifica as teorias particulares a cada campo”.

Eram estruturas importadas da termodinâmica, dos métodos de otimização usados em física clássica. Vieram depois a programação linear e não linear, a teoria de controle, a programação dinâmica, a teoria dos jogos e então, “para melhor ou para pior, economia feita a sério tornou-se um campo matemático, assim como a física e a engenharia haviam se tornado há mais de um século”. E Samuelson estava em toda parte.

Uma de suas citações favoritas bem poderia ser seu epitáfio: “Em economia, as verdades são incertas. Os acadêmicos devem ser humildes quanto à precisão de suas teorias. Mas nossa humildade resulta do conhecimento, e não da ignorância. Não desejamos aplausos de leigos. Trabalhamos pela única recompensa que vale a pena: nossos próprios aplausos.”

(O Globo, 21/12/2009)

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