Se as commodities caírem

Rolf Kuntz

O Brasil continua aproveitando a onda de bons preços internacionais para minérios, produtos agrícolas e bens intermediários. Cotações favoráveis são a principal explicação para o bom desempenho do comércio exterior, com exportação de US$ 157,6 bilhões de janeiro até a terceira semana de agosto – valor 31,3% maior que o de um ano antes – e superávit de US$ 18,4 bilhões. O resultado final do ano deverá ultrapassar o de 2010, US$ 20,2 bilhões. A última projeção do mercado financeiro é um saldo de US$ 22,8 bilhões. E se os preços caírem? As cotações tendem a manter-se ou a diminuir, segundo comentou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em depoimento no Congresso nesta terça-feira. Não virão, portanto, novas pressões inflacionárias desse mercado, segundo sua avaliação. Mas poderá – faltou acrescentar esse ponto – haver consequências indesejáveis nas contas externas. De janeiro a julho, o País acumulou um buraco de US$ 28,9 bilhões nas transações correntes com o exterior, equivalente a 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2010, no mesmo período, a proporção foi maior, 2,4%. Houve melhora, portanto, graças ao crescimento do PIB, e esse déficit parece perfeitamente administrável. Mas como ficará a situação, se houver uma desvalorização das commodities?

É bom levar em conta essa possibilidade, por causa do risco de uma nova recessão nas economias mais avançadas e da perspectiva de menor crescimento chinês. Nos últimos três anos os termos de troca – relação entre preços de exportações e de importações – aumentaram 35%. Isso permitiu suportar o aumento de importações, principalmente de bens de consumo e bens intermediários, ocasionado pela expansão da demanda interna e pela valorização do real. O déficit na conta corrente voltou a crescer, mas se manteve em níveis considerados seguros. Mas convém pensar nas consequências de uma volta dos termos de troca a padrões menos favoráveis.

Se os termos de troca permanecerem constantes, o déficit em transações correntes cairá dos atuais 2,1% do PIB para 1,8% no próximo ano, segundo estimativa da Sobeet, a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica. Se convergirem para a média observada a partir de 2000, o buraco aumentará para 3,1% em 2012. Mas poderá chegar a 3,3% ou a 3,6%, no mesmo ano, se as médias forem aquelas dos períodos iniciados em 1990 ou em 1980. A manutenção de todas as demais variáveis, incluído o crescimento do PIB, é um dos pressupostos adotados para esses cálculos. Mesmo na pior hipótese, o déficit continuaria financiável em 2012, segundo os autores das projeções. Mas poderia haver problemas nos anos seguintes.

Outros economistas têm procurado estimar como ficariam as contas, no caso de uma alteração nos termos de troca. Se a relação entre preços de exportação e de importação estivesse na média de 1980 a 2010, o saldo comercial nos 12 meses terminados em julho seria um déficit de US$ 24,6 bilhões, em vez de um superávit de US$ 26,4 bilhões, segundo cálculo da Quest Investimentos citado pelo Valor.

O crescimento brasileiro, baseado principalmente no dinamismo do mercado interno, tem dependido, portanto, das condições excepcionalmente favoráveis do mercado de produtos básicos e bens intermediários. A demanda interna tem pressionado fortemente as importações. Neste ano, o gasto com produtos importados, mesmo sem grande influência de preços, foi até a terceira semana de agosto 28,2% maior que o de um ano antes. A diferença entre o valor exportado neste ano e o registrado em 2010 foi pouco maior – 31,3% – e é explicável essencialmente pelo aumento de preços internacionais. A relativa segurança das contas externas – com o déficit em conta corrente em nível ainda administrável – tem dependido, portanto, de fatores fora do controle dos brasileiros – o crescimento dos emergentes, especialmente da China, e seus efeitos sobre as cotações das commodities.

Esses fatores são reversíveis e já há quem preveja uma forte desaceleração da economia chinesa. Esse é o caso do professor americano Michael Pettis, da Universidade de Pequim, segundo reportagem da correspondente Claudia Trevisan, publicada no Estado de segunda-feira. Admitir a hipótese de um crescimento menor da China, pelo menos para montar uma estratégia defensiva, seria uma demonstração de prudência do governo brasileiro. Muito mais prudente, no entanto, teria sido um cuidado maior com o poder de competição da economia brasileira. Aproveitar a valorização das commodities é muito bom. Ruim é depender dos preços desses produtos e da fome de matérias-primas de umas poucas economias emergentes.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 24/08/2011

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