Se fosse um emergente

Parece, mas não é. Os sintomas são costumeiros, o país emissor não. O governo leiloa seus títulos e os investidores exigem juros maiores e prazos menores para detê-los. Os estrangeiros encontram-se cada vez mais ariscos com suas posições. A moeda se deprecia. O Banco Central não sabe se compra de volta os títulos do governo para deter a subida dos juros. Não se trata de uma crise de economia emergente. Mas, sim, da maior economia do mundo que enfrenta mais um desafio nessa crise. Quais são as causas e consequências desse fenômeno? Estariam os investidores já no processo de realocação de investimentos fora dos ativos em dólar, o que explicaria em parte esse novo fluxo de recursos para o Brasil e a apreciação do real?

Os juros dos títulos de dez anos nos Estados Unidos subiram de 2,2%, no começo do ano, para 3,6%, esta semana. Há várias interpretações para essa subida, algumas mais otimistas que outras. Em primeiro lugar, a subida de juros poderia estar refletindo alívio pelo pior da crise financeira ter ficado para trás. Com isso, estaria havendo apenas uma correção de uma distorção anterior: os juros estavam muito baixos em função da compra exagerada de títulos americanos no meio da crise. Em segundo lugar, a percepção de alívio pode ser na economia. O pior da recessão pode ter ficado para trás e não há necessidade de juros tão baixos.

Mas há interpretações menos benignas. Vejamos. Uma terceira interpretação é a de que os detentores dos títulos perceberam que a inflação terá que subir no futuro mais distante, o que já eleva hoje os juros nominais mais longos. Os custos elevadíssimos dos resgates no sistema financeiro e dos estímulos à economia terão que ser pagos. Uma saída é taxar todos com um aumento da inflação.

Finalmente, uma quarta interpretação é ainda mais pessimista. Interpreta a subida de juros como mais um sintoma de incipiente fuga dos investidores de ativos denominados em dólar. A fuga decorreria do maior risco fiscal nos EUA (levando ao downgrade da dívida americana, a exemplo da inglesa, ocorrido há duas semanas).

É relevante distinguir entre as diferentes interpretações. Uma correção de um exagero passado ou um alívio na economia, como nas primeiras duas interpretações, são fenômenos benignos. No entanto, o encurtamento dos prazos, a queda do volume das aplicações dos estrangeiros nos ativos americanos e o desejo do Fed (o banco central americano) de recomprar sua dívida depõem contra essas hipóteses benignas. Além disso, a melhor percepção sobre a recuperação da economia americana não deveria estar associada a uma depreciação da moeda.

Em contraste, uma diminuição do apetite dos investidores por títulos americanos devido ao risco fiscal (downgrade) ou de inflação é um sintoma mais preocupante. Uma subida prematura dos juros longos por esses motivos poderia colocar em risco a frágil recuperação da economia americana.

E qual seria o impacto no Brasil? Uma lenta realocação dos investidores para fora dos ativos em dólar, se feita de forma gradual e ordenada, poderia levar à apreciação do real e a quedas dos juros no Brasil. Afinal, haveria mais demanda por nossos ativos em detrimento dos ativos em dólar, e nos EUA. O benefício de uma maior disposição internacional para financiar o Brasil poderia contribuir para sustentar a economia brasileira, apesar das dificuldades da economia americana.

Já uma eventual (e ainda pouco provável) corrida contra os ativos americanos que levasse à desorganização do sistema financeiro (afinal, o dólar é a moeda de referência do mundo, e os EUA o centro financeiro) poderia elevar o risco no mundo e prejudicar todos. É um risco para ficar no radar de todos.

Em geral, tendo a associar desenvolvimentos locais com os internacionais. A realocação de recursos, que está prejudicando o mercado de títulos americanos, pode estar na origem do recente influxo de capital para o Brasil e a consequente apreciação do real. Melhor para nós. Mas se passar do ponto por lá, piora por aqui também.

(O Globo – 02/06/2009)

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