Vindo de palestra em seminário que se repete há alguns anos nos Estados Unidos sobre a economia mundial e os países emergentes, é gratificante perceber o novo papel do Brasil. Pela primeira vez, abria-se uma janela para o País no evento. O contexto não era mais dos Bric, mas sim do que agora chamam de Bic: Brasil, Índia e China, excetuando-se, portanto, a Rússia.

A sensação é de que, enquanto no mundo desenvolvido a maré não está para peixe, há uma enorme demanda lá fora por Brasil, ou seja, por nossos produtos, por nossas oportunidades de investimento, e pelo nosso mercado em ascensão.

Há muita expectativa em relação ao petróleo (pré-sal), e particularmente à capitalização da Petrobrás, que, sozinha, pode atrair algo entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões adicionais nos próximos meses, em adição aos vultosos recursos que ingressam atualmente no País. É uma pena que a campanha eleitoral coloque uma cortina embaçada sobre esses e outros temas tão relevantes do debate nacional.

Inquietações. Algumas perguntas, contudo, inquietavam os participantes do seminário: por que no Brasil o setor público gasta tanto em tudo menos investimento, e de forma tão ineficiente? Como a infraestrutura vai suportar essa nova demanda? E por que o Brasil, sendo uma economia ainda emergente, tem de extrair tantos recursos e de forma tão complexa da nossa sociedade?

Obviamente, tudo é parte do mesmo enredo. Sendo o gasto corrente (pessoal, previdência, assistência etc.) alto (além de ineficiente), a carga tributária tem de ser também elevada, para cobrir esses gastos, e os governos têm de se valer de impostos ruins para arrecadar tanto.

De quebra, não há recursos disponíveis para a parcela da infraestrutura que cabe ao governo federal implantar. Ou seja, estamos pegando carona na “licença para gastar” do mundo desenvolvido, mas do jeito errado, e, além disso, inventando receitas de tudo que é jeito, para evitar um ajuste.

Consequência: o PIB cresce menos do que poderia. Em suma, a maré está, sim, boa para nós, mas se não mudarmos certas coisas, uma hora a casa cai.

Fonte: Jornal “O Estado de S.Paulo” – 21/09/10

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