Muito já se falou em Consenso de Washington, embora pouco dos que o atacam consigam caracterizar fielmente o seu sentido. Mas, passados estes 100 dias de governo Obama e observando a reação dos demais países com a crise, já podemos falar em um novo consenso. Este sim, de alcance global, adesão quase irrestrita e possíveis efeitos danosos.

Para início de conversa, cabe lembrar o que seria o Consenso de Washington original, expressão que depois foi descaracterizada e serviu para muitos palanques e pouca reflexão séria. O rótulo teve origem num artigo publicado em 1989 por John Williamson, economista americano mas com fortes laços com o Brasil, inclusive professor visitante da PUC-RJ. As ideias seriam as consensuais entre as instituições multilaterais (como FMI e Banco Mundial, sediadas em Washington). E aí não tinha nada de absurdo, muito pelo contrário. Estavam na lista disciplina fiscal (evitar a gastança e o financiamento inflacionário), melhor priorização dos gastos públicos (defesa dos investimentos em saúde e educação), reforma fiscal (incluindo o aumento da base de arrecadação), unificação da taxa de câmbio em nível que estimule exportações (alguém se lembra do câmbio comercial, turismo, black?), estímulo ao investimento direto externo e garantia do direito de propriedade, entre outros pontos.

Quem tiver mais interesse pode conferir o paper original ou um breve texto preparado por Fábio Giambiagi e Maurício Mesquita Moreira em abril de 2000, publicado pelo BNDES chamado “Políticas Neoliberais? Mas o que é o neoliberalismo?”.

Basta uma rápida análise para perceber quão distantes desses objetivos estiveram os países na América Latina. Para pegar um exemplo, a Argentina, que de fato realizou muitas privatizações na era Menem, tinha câmbio fixo, quando Williamson via como ideal um câmbio unificado (para evitar favorecimentos a grupos de pressão) com taxa competitiva (estímulo a exportação). Além disso, não houve disciplina fiscal, com uma gastança que não tinha limites nas províncias. E ainda assim, esse país é apresentado como aluno exemplar do Consenso de Washington, o que está distante da realidade. A América Latina comemora a queda do que nunca subiu por aqui.

Mas agora, especialmente após a reunião do G-20 em Londres, vivemos sim um certo consenso de Washington. E é o consenso intervencionista, que já havia começado no governo Bush II e continua no de Obama.

Nesse novo consenso, empresas ineficientes ganham cartão verde para se financiar com dinheiro do contribuinte e não de suas vendas, como acontece com os pacotes salvadores das montadoras de veículos. Uma crise econômica causada, em grande parte, por erros de política monetária (com a manutenção por muito tempo de juros irrisórios estimulando um consumo desenfreado) é “sanada” com mais do mesmo: mais juros baixos e mais gastos do governo. E notem bem: um pacote de salvamento de mais de US$ 700 bilhões foi aprovado ainda no governo Bush, que também concordou em salvar a AIG, financiadoras imobiliárias e empresas automotivas. Change? O intervencionismo une Bush e Obama, passando pelo trabalhista Gordon Brown, praticando um déficit fiscal anual próximo aos 10% do PIB. A despeito de mudanças na política externa, a política econômica de Obama tem a mesma característica da de Bush: estímulo monetário (juros quase a zero) e estímulo fiscal. O que varia, na parte fiscal, são os setores escolhidos (e os lobistas) para receber a ajuda. A essência é a mesma.

Felizmente, ainda há líderes sérios que apontam para os riscos do gasto excessivo e a deterioração do ambiente econômico pelo intervencionismo estatal, especialmente quando mau conduzido. Um deles é David Cameron, parlamentar inglês líder do Partido Conservador. Ele já lidera em muitas pesquisas as intenções de votos contra Gordon Brown e o partido Trabalhista. Não ouviu ainda falar de Cameron? Escute-o para fugir desse consenso, o que pode ser feito todas as quartas-feiras nos debates do Parlamento Inglês ou nesta apresentação em aúdio na London School of Economics.

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