Sem medo do futuro

Prossegue ininterrupta há mais de duas décadas a sequência de escândalos de corrupção envolvendo o uso de recursos públicos. A propina entregue a funcionários da Casa Civil pela compra governamental de remédios contra a gripe suína foi apenas o último episódio. O escândalo derrubou a ministra Erenice Guerra e esquentou ainda mais a feroz disputa política entre tucanos e petistas às vésperas das eleições.

Os tucanos acusam os petistas de aparelhamento da máquina pública, por sua ocupação com quadros partidários, e de violação do estado de direito, pela quebra discricionária de sigilo fiscal. FHC acusa Lula de se comportar como chefe de facção durante a campanha. Mas o que dizer de FHC quando patrocinou uma mudança constitucional pela própria reeleição? As eleições brasileiras se tornaram uma feroz disputa pelo comando de gastos públicos que atingem 40% do PIB. Essa ferocidade das campanhas eleitorais é um sintoma do Princípio de Gause em biologia evolucionária: uma guerra de extermínio entre espécies semelhantes — tucanos e petistas — pelo domínio de um nicho ecológico: a hegemonia social-democrata.

O PSDB e o PT se revezam no poder com alianças que consideram espúrias, fisiológicas e retrógradas, conforme acusações mútuas, desembocando em acusações recíprocas de corrupção. As batalhas partidárias têm se limitado à tomada de poder. O vazio de sua agenda e sua omissão quanto às reformas necessárias reduziram a vida política a uma sinuosa disputa pela opinião pública.

A sucessão de escândalos leva ao crescente descrédito da classe política.

A clássica denúncia de Marx permanece atual: “As enormes quantias de dinheiro que passavam pelas mãos do Estado davam oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero.” Enquanto persistir uma busca da governabilidade por práticas político-administrativas condenáveis, estaremos expostos a crises institucionais. A inapetência por reformas é uma demonstração de insensatez. Os gastos públicos são centralizados em demasia (reforma fiscal), financiados por impostos excessivos (reforma tributária), as relações de trabalho são obsoletas e os encargos sociais, proibitivos (reforma trabalhista e previdenciária).

O futuro está muito além da “esquerda” e da “direita”. Não podemos temer o novo.

Fonte: Jornal “O Globo” – 20/09/10

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