Sábado, 10 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Sem trama e sem final

“Por que não escolheste um tema sério? A forma é excelente, mas as personagens parecem pedaços de pau, o tema é insignificante. Uma quinta série de ginásio faria melhor. Pega alguma coisa da vida, de todos os dias, sem trama e sem final.” Esse é o trecho de carta escrita por Anton Chekhov para o irmão mais velho, Alexander, em 16 de junho de 1887.

A economia é coisa da vida, de todos os dias. Trata-se de tema sério, longe de ser insignificante. Por que então o governo brasileiro e, sobretudo, seus defensores parecem pedaços de pau ao tratar do assunto? Para salvar Dilma do impeachment, pensam, é preciso gastar mais. Para salvar Dilma do impeachment, é preciso abater cerca de R$ 120 bilhões da “meta”, aquela que não é fixa, número que flutua ao sabor dos desmandos de Dilma e de seu fiel ministro da Fazenda, o inventor da “banda fiscal”.

Para salvar Dilma do impeachment, é preciso abrir espaço para mais gastos, mais repasses para os Estados brasileiros, muitos quebrados. Para salvar Dilma do impeachment, é preciso jogar debaixo do trem as reformas da Previdência e das leis trabalhistas, ambas urgentes para a retomada sustentável do crescimento econômico e do emprego. Para salvar Dilma do impeachment, vale tudo. Vale até quebrar o Brasil, quebrá-lo mais de uma vez. Afinal, arrebentado o País já está. Arrebentado de forma vil, léguas da excelência.
Repito palavras que escrevi em 10 de outubro de 2014 na Folha de S. Paulo em artigo intitulado “Mentira tem perna curta”. “Há quem ache que mentira repetida à exaustão torna-se verdade absoluta. Há quem subestime a capacidade de reflexão das pessoas repetindo refrões mentirosos como “o Brasil quebrou três vezes durante a época em que o PSDB esteve no poder”, nos anos 1990. Prefiro outro dito popular, o que diz que mentira em cima de mentira corre, corre, mas não chega a lugar algum com suas pernas desavantajadas.

Quem te viu, quem te vê. Depois de registrar o maior déficit primário em duas décadas no mês de fevereiro de 2016, cerca de 2,1% do PIB no acumulado de doze meses, o Brasil está, sim, quebrado. A dívida pública, hoje acima de 70% do PIB segundo a metodologia do FMI, a única métrica comparável a de outros países – uma vez que a medida do Banco Central exclui parcela relevante da dívida pública de seu cálculo –, está em trajetória ascendente. Ainda que não se considerem as mais recentes tentativas no estilo “salve-se quem puder” do governo, o estoque bruto da dívida pública brasileira deve alcançar rapidamente os 80%.
A velocidade da deterioração fiscal tem sido espantosa – o que mata, aquilo que quebra é, sempre, a velocidade. Mas governo em fim de linha, governo descarrilado, não se importa com a velocidade. Ao contrário, para governo em fim de linha, quanto mais rápido, melhor. Quem sabe assim a ilusão de que a economia em frangalhos será reanimada sobreviva um pouco mais, ganhe adeptos, um pouco mais, ou mantenha os iludidos de plantão cegos pelos movimentos vertiginosos que não conseguem acompanhar.

O Brasil está quebrado. Para resolver os problemas que impedem a retomada do crescimento e do emprego será necessário enorme empenho em reestruturar o orçamento público, adotando medidas indigestas que muita indignação hão de gerar. Benefícios, programas sociais, regras de salário mínimo, benesses do BNDES, tudo isso terá de ser repensado e reformulado. Antes, tudo isso terá de ser explicado à sociedade. Para que se chegue ao consenso do que é necessário, será preciso explicar para a população brasileira porque as melhorias de vida que pensara ter alcançado eram apenas fruto de uma falácia, de um grande embuste. Embuste travestido de “preocupação com o povo, atenção aos pobres”.

O Brasil está quebrado. Isso significa que a volta à realidade será dura, lenta, prolongada. Poderá se estender por muitos anos, a depender dos descalabros adicionais aos quais o governo estrebuchante nos submeterá. É essa a coisa da vida, de todos os dias, a economia. Sem trama e sem final.

Fonte: “O Estado de S. Paulo”, 6 de abril de 2016

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