Sábado, 10 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Será que a Rússia e o Brasil são ‘modernizáveis?

Junto com a imensa decepção global pela performance econômica do “B” e do “R” dos Brics, com cada vez mais frequência se pergunta: será que Brasil e Rússia são “aperfeiçoáveis”?

A julgar pelas dificuldades em se promover um menor protagonismo do Kremlin no quadro de governança russo e a disfuncionalidade da política no Brasil, a resposta é “não”.

O Brasil é hoje país em que impera a “micropolítica” do conchavo e da autopreservação

No caso da Rússia, a pergunta é realizada com ceticismo num extraordinário livro (“Can Russia Modernise?”, Cambridge University Press, 2013), escrito por Alena Ledeneva, professora de política e sociedade do University College London.

Seriam esses dois gigantes prisioneiros de sua inabilidade em promover aperfeiçoamento institucionais?

Sem uma pronunciada inflexão de sua elite política, dificilmente Brasil e Rússia se tornarão o que o economista Ruchir Sharma denomina “Breakout Nations” –países que conseguem se desvencilhar das armadilhas das estruturas inerciais do capitalismo de compadrio e, portanto, alçam voo rumo à prosperidade.

No caso da Rússia, país que ao longo da história produziu grande número de expoentes nas ciências e nas artes, salta aos olhos como as instituições não favorecem o aparecimento de grandes destaques no campo do empreendedorismo. E não é por falta de diagnóstico.

Há poucas semanas, quando Vladimir Putin realizou seu discurso de “estado da União” ao Parlamento russo, todas as referências à importância da separação de poderes estavam presentes.

A linha geral do pronunciamento é também plenamente harmoniosa com a noção de que o país não pode se sujeitar a tamanha dependência na exportação de commodities minerais e, portanto, precisa rumar em direção à uma economia intensiva em tecnologia.

Tive a oportunidade de assistir a esse discurso presencialmente na Duma (o Congresso russo) ao lado de alguns observadores internacionais.

Um deles, há 20 anos em Moscou e titular de uma das principais consultorias de avaliação de risco com foco nos países da antiga URSS, disse-me que o discurso modernizante de Putin é o mesmo desde que o ex-membro da KGB ascendeu ao topo do poder russo.

E muitos observadores atentos da cena russa –ao contrário do que crê a maioria dos analistas ocidentais, que enxergam em Putin nada mais que um megalômano– entendem que o titular do Kremlin chegou ao poder munido das melhores intenções e de boas diretrizes para modernizar a Rússia.

Contudo, no intuito de assegurar uma “perene longevidade” no poder e ainda ter de travar batalhas conjunturais (o terrorismo tchetcheno, a guerra na Geórgia, oligarcas dissidentes ou a indesejável expansão da Otan às portas da CEI, a Comunidade de Estados Independentes), a modernização institucional há um tempo vocalizada por Putin jamais deixou o campo da retórica.

Para os que lançam um olhar “compreensivo” sobre Putin, os dilemas de uma desejada modernização sufocada pela força do status quo não é exclusiva da Rússia.

Podem-se mesmo encontrar paralelos no discurso modernizante de Enrique Peña Nieto, no México, ou Narendra Modi, na Índia, e nas robustas dificuldades de implementação de uma agenda reformadora que esses líderes encontram em seus países.

A propósito, estamos prestes a assistir a um novo e apaixonante embate entre a modernização e o poder inercial do status quo em nossa vizinha argentina sob a nova direção de Macri.

Observar a recente cena brasileira convida a uma outra e perturbadora questão que me foi feita recentemente num seminário em Moscou: ademais de suas dificuldades de modernização, será que o Brasil é “governável”?

A resposta é tanto mais difícil e desalentadora, pois o Brasil é hoje país em que impera a “micropolítica” do conchavo e da autopreservação –e onde acumula-se imenso déficit da “macropolítica” dos grandes interesses nacionais.

Fonte: Folha de S.Paulo, 16/12/2015.

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