A primeira menção ao custo do projeto para a construção do estádio do Corinthians, em Itaquera, foi feita por este jornal. Foi em julho do ano passado. A obra sairia por mais ou menos R$ 400 milhões.

Meses depois, assim que a Fifa descartou o Morumbi como o palco paulistano dos jogos da Copa de 2014, o projeto foi adequado às exigências da entidade. O preço saltou para R$ 650 milhões.

Nada mais natural. O valor foi dado como aceito e não se falou em aumento quando a Odebrecht entrou em cena, em abril deste ano. A construtora e o clube chegaram a um acordo. O governo de São Paulo e a prefeitura municipal gostaram da ideia e se comprometeram a uma ajuda vultosa.

Seriam R$ 478 milhões em obras de infraestrutura na área do estádio, além de incentivos fiscais. Naquela noite, um jantar celebrou o entendimento. Estourou-se um champanhe e um brinde entre o governador Geraldo Alckmin, o prefeito Gilberto Kassab, o empresário Marcelo Odebrecht, o presidente do Corinthians, Andres Sanchez, e os demais presentes deu o acordo por selado.

O brinde não foi suficiente para fazer a obra ir adiante. Na manhã da última sexta-feira, 13 de maio, foi apresentado um novo orçamento, R$ 1,07 bilhão.

Na mesma tarde, no Palácio dos Bandeirantes, Alckmin se reuniu com Kassab, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, Sanchez, o diretor de marketing do Corinthians, Jorge Paulo Rosemberg e alguns assessores. O governador ouviu a exposição de motivos e se espantou com o aumento dos preços.

Espantado mesmo ele ficou quando se deu conta de que o governo estadual seria convidado a comparecer não só com dinheiro para a infraestrutura, mas para a obra propriamente dita. Alckmin não gostou.

Respirou fundo e, num gesto brusco, se levantou. Em silêncio, contornou a mesa e foi até a janela. Respirou fundo outra vez, voltou à mesa e, tentando manter a calma, disse mais ou menos o seguinte:

– Não estou entendendo o que mudou entre nossa última conversa e hoje.

Os presentes, pelo que parece, não esperavam pela reação. Tentaram, então, explicar ao governador que uma série de mudanças conceituais encareceriam a obra em mais ou menos R$ 400 milhões.

Mais tarde, Alckmin disse a um amigo que não entrava em sua cabeça a ideia de um aumento tão expressivo sem o acréscimo de um quilo de concreto ou de um metro de vergalhão à obra.

Observe o seguinte: R$ 1 bilhão é o orçamento de uma obra complicada, que envolve a demolição, a remoção de entulhos, a logística complexa, o reforço das estruturas sexagenárias e reconstrução do Maracanã, no Rio de Janeiro.

Pelo mesmo dinheiro, querem pôr de pé um estádio menor, num terreno plano e desimpedido, que se valerá de uma tecnologia construtiva leve, moderna e barata. Agora, o preço da obra deve encolher tão conceitualmente quanto subiu.

No final, ficará em torno de R$ 700 milhões – e provavelmente haverá quem fale numa economia de R$ 300 milhões. Movimentos erráticos como esse, convenhamos, não ajudam a melhorar a situação. Ou ajudam?

Fonte: Brasil Econômico, 20/05/2011

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