O significado das eleições

Os 43 milhões de votos obtidos pela presidenta Dilma, no primeiro turno das eleições, traduzem, em primeiro lugar, um mérito dos governos do PT. Na primeira década do século, que coincidiu com os anos de governo Lula, a renda dos 10% de brasileiros mais pobres cresceu em média 6,79%, contra apenas 1,49%, dos 10% mais ricos. São números cuja complexidade escapa a um rápido artigo, mas nos oferecem um indicativo da mutação social ocorrida no Brasil, nos últimos anos. A presidente não conta, hoje, com uma economia crescendo 7,5%, como em 2010, mas conta com a inércia de um país que se transformou, na base da pirâmide, para melhor, nos últimos anos. O país descrito por Marcelo Neri, da migração dos 50 milhões para a “nova classe média”. O conceito pode ser sociologicamente duvidoso, mas é perfeitamente perceptível no dia a dia do varejo de massa, das nossas universidades de massa, do crescimento exponencial de um programa como o FIES ou o Minha casa minha vida. É o Brasil cujo endividamento das famílias pulou de 18 para quase 50%, em dez anos, mas que colocou geladeira e celular, um carro popular, talvez usado, e mesmo um apartamento de 40m², na vida de alguns milhões de brasileiros. Um Brasil que, por óbvio, não diz respeito a boa parte dos nossos analistas políticos e à classe média afluente que descarrega seus humores nas redes sociais. Mas um país perfeitamente real, que aparece a cada quatro anos, pela força do voto obrigatório.

Não estou dizendo que foram os governos do PT que criaram este Brasil. Mas eles estavam lá, e fizeram alguma coisa para que esta mutação social acontecesse. Em parte, eles estavam lá na hora certa, na década em que o preço das commodities disparou, no meio do nosso bônus demográfico, quando alguns milhões de jovens conseguiram completar o ensino fundamental, cujo acesso foi universalizado nos anos 90. Em parte, diriam alguns, foi por sorte, em parte, habilidade. É isto sim: sorte e habilidade. A vida é assim mesmo, não? Virtu e fortuna, para quem quiser lembrar do mestre florentino. Lula, em especial, soube associar a si este momento da história brasileira. Soube fazer crer que tudo havia mudado, de uma hora para outra, com sua chegada ao poder. Pouco importa se coisa parecida também estivesse ocorrendo no Peru, ou em quase toda a América Latina. Alguém, por acaso, se dá o trabalho de ficar comparando essas coisas? O assunto poderia ir longe. O ponto é perceber que há uma base social que sustenta a votação da presidente Dilma. Há uma memória fresca do Brasil que mudou, na última década. Tão forte que sobreviveu ao crescimento pífio da economia, nos últimos anos, aos erros na condução da política econômica e à corrupção na Petrobras. É esta base social que faz da presidente Dilma a favorita para vencer no segundo turno. Compreender isto, sem ficar nervoso, é o primeiro passo a ser dado, igualmente, para quem alimentar a pretensão de derrota-la.

O ponto é perceber que há uma base social que sustenta a votação da presidente Dilma. Há uma memória fresca do Brasil que mudou, na última década

A campanha do primeiro turno mostrou, ademais, que prossegue funcionando o mesmíssimo modelo de “enquadramento político” usado pelo PT em todas as eleições que ganhou do PSDB, nos últimos anos. No primeiro turno, o modelo foi aplicado, com especial crueldade, em Marina Silva. Representante dos bancos, nova expressão da direita neoliberal, inimiga do pré-sal, dará fim aos recursos da educação, dos programas sociais etc. Confesso que, de inicio, cheguei a pensar que este discurso não iria colar em uma liderança como Marina. Me enganei. Colou direitinho. Contra Aécio, a expressão tranquila de Lula, na virada para o segundo turno, parecia dizer tudo. O discurso não colou perfeitamente em Geraldo Alkmin e em Serra, duas vezes? Por que diabos não colaria, dessa vez, em Aécio Neves? O líder do “choque de gestão”, em Minas Gerais? O político moderno que aposta em PPPs para o sistema prisional? Que tem Arminio Fraga como conselheiro econômico e acredita em metas e meritocracia, na educação? Em alguma pasta do publicitário João Santana já tem uma campanha pronta para o devido “enquadramento”. Talvez ele não funcione. Talvez caia no ridículo o novo slogan “governo novo, ideias novas”, para um partido há 12 anos no poder. Mas sinceramente não creio. Feliz pra uns, infelizmente pra outros, acho que cola.

Há, ainda um universo social muito particular, criado pelos governos do PT, formado por 50 milhões de brasileiros muito pobres e quase nenhum acesso à informação, que dependem do programa bolsa família. Basta registrar que Dilma venceu, no primeiro turno, com perto de 80% dos votos, entre os 100 municípios mais dependentes do Bolsa Família. Objetivamente, Dilma deve a este eleitor a sua vitória no primeiro turno. O Bolsa Família é um programa positivo e deveria se tornar um política de Estado, no Brasil. É péssimo, porém, para a nossa democracia, que ele seja instrumentalizado, eleição após eleição, pelo marketing eleitoral do governo. Pessoas fragilizadas pela vida, submetidas à estratégia do medo, da ameaça de que “eles” vão acabar com o benefício, em um debate histérico e baixo conteúdo ético. Esta estratégia foi usada contra Marina, no primeiro turno, e tudo leva a crer que será usada contra Aécio, no segundo turno.

O ponto central dessa eleição é saber se a oposição será capaz de sensibilizar a classe média ascendente para um nova perspectiva de crescimento do país. Se saberá explicar – não para quem está preocupado com o preço do dólar e das ações das estatais – como o Brasil dará um novo salto. O que virá depois do ProUni, dos aumentos reais do salário mínimo, do pleno emprego e do crédito farto para a casa própria. No fundo, é uma disputa entre um Brasil que deu um salto, e estagnou, e um país que precisa apostar em uma nova via de crescimento e inclusão social. Que precisa sair da “armadilha da renda média”, destravar o investimento privado, retomar o ciclo de reformas iniciado nos anos 90, dar um jeito na educação básica e, acima de tudo, retomar o sentido da república e da ética pública. Isso que todo mundo, ou quase todo mundo, com alguma informação e um bom coração, sabe que precisa ser feito. Difícil é transformar isto em um discurso político popular, forte e sedutor o suficiente para resistir à estratégia do medo.

Fonte: Revista Voto, 8/10/2014

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