O silêncio das ruas

Em meio à crise política que ameaça o mandato de Temer, um presidente com taxa de aprovação de um dígito, o silêncio das ruas gera o estranhamento de muitos analistas e críticas à suposta postura passiva da sociedade.

Identificar as causas da possível apatia não é trabalho para economistas, mas é possível afirmar que a economia pode ajudar a explicar esse quadro.

O quadro econômico é bem menos desconfortável hoje do que há um ano, como refletido na melhora dos indicadores de confiança. E há razões para isso.

O avanço no front inflacionário é mais óbvio. No primeiro trimestre do ano passado, na véspera do impeachment de Dilma, a inflação estava em 7,3% ao ano, muito acima da meta de 4,5% e de seu teto de 6,5%. Agora, a inflação está muito abaixo da meta, em 3,6%.

A atividade econômica, apesar dos patamares deprimidos, dá sinais inequívocos de estabilização. Isso por si só representa grande alívio. A sensação de crise sem fim, do início de 2016, era perturbadora. Como agravante, não havia instrumento de política econômica disponível para interromper rapidamente a sangria na economia. Agora, o ambiente é mais promissor, e com espaço para relaxamento das condições monetárias.

A taxa de desemprego, por outro lado, só fez subir. No primeiro trimestre de 2016 estava em 10,2% e em abril deste ano, em 12,9% (ambos os dados descontam o padrão sazonal). Apesar disso, o mercado de trabalho também dá sinais de estabilização, com o fim das demissões. Assim, o índice que mede o medo do desemprego (calculado pela CNI), ainda que oscilando em torno de níveis recordes na série iniciada em 1996, está estável.

Tudo somado, inflação baixa e medo do desemprego estável, o saldo líquido é positivo. O desconforto da sociedade (“misery index”), aqui medido pela soma das variáveis citadas, está em queda desde o pico do primeiro trimestre de 2016. O patamar é elevado, mas a tendência de queda é promissora.

A ausência de protestos talvez não seja sinal de apatia das pessoas. Uma possível interpretação é que, com a melhora do ambiente econômico em curso, o sentimento de “preciso cuidar da vida” ganha maior foco em contraposição ao de mobilização para protestar. A decisão individual é racional.

O tempo corre a favor da economia. Com o espaço para mais cortes da taxa de juros pelo Banco Central, os sinais de recuperação começarão a surgir aos poucos.

O índice de desconforto deverá continuar recuando ao longo do ano, com a batalha da inflação vencida (a projeção para o ano está em 3,5% na pesquisa Focus do BC) e com a provável tendência de recuo do medo do desemprego. É verdade que a taxa de desemprego poderá ainda subir, caso a geração de vagas seja insuficiente para dar conta do crescimento da procura de trabalho. No entanto, o medo de perder o emprego responde mais à variação da geração de vagas, que estabilizou, do que à taxa de desemprego.

Esses serão impulsos para a melhora da confiança do consumidor, que poderá não ser muito abalada pela crise política. A julgar, portanto, apenas pela economia, vão se reduzir as chances de mobilizações da sociedade daqui para a frente.

A política terá, portanto, de resolver o destino do país este ano sem o ingrediente de mobilizações sociais. Decisão mais difícil do que na época de Dilma, quando o sentimento de colapso econômico “expulsava” a presidente.

A classe política terá de decidir o que é o melhor para o país hoje, enquanto a sociedade parece não ter grande convicção quanto à melhor saída para a crise.

Não é uma equação fácil de ser resolvida, o que significa que a solução da crise política poderá demorar. Esta talvez seja a maior ameaça: a crise política se arrastar e prejudicar os investimentos e a agenda de reformas, com consequências negativas para o futuro.

Qualquer que seja a decisão política, convém senso de urgência.

Fonte: “O Estado de S. Paulo”, 29/06/2017

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