Simpatias em Davos para o azar não crescer

No último artigo escrito para esta página (19/12/2013), sugeri que o maior desafio que a presidente Dilma Rousseff tem pela frente talvez não se resuma em ser reeleita, e, sim, na obrigação de bem conduzir o Brasil a partir de 2015. Esse desafio tem grande probabilidade de tornar sua reeleição uma vitória de Pirro e de levar o seu segundo mandato ao desastre. O pior é que uma boa parte do que possa dissipar o nevoeiro da economia e da política, no horizonte pós-eleitoral, depende mais da sorte do que da presidente e da equipe do governo.

Dilma parece ter percebido que a sorte precisa lhe sorrir – como sorriu em 2008 para o seu antecessor e padrinho – e decidiu embarcar para Davos, na Suíça, na semana que vem, à frente de luzida equipe de governo.

O Fórum Econômico de Davos tornou-se, ao longo de anos, o maior palco de exibição, de negociação, de consultas ou de simples auscultação da nata do capitalismo privado mundial e da nata dos administradores de políticas públicas dos governos mais poderosos. No seu tempo, Lula estimulou, do Brasil, a realização de um outro fórum, no mesmo local, um fórum de desenvolvimento social, arrebanhando lideranças de “movimentos” os mais diversos. É difícil de saber exatamente o que de proveitoso resultou daquilo, mas, aparentemente, nada.

A presidente Rousseff nunca se importou com Davos nem compareceu nos três conclaves realizados durante o seu mandato. Ao que parece, estava mais empenhada e preocupada com a extinção da miséria do que com a promoção da riqueza. Mandava representantes. Um deles, o eminente ministro Antonio Patriota, tentou justificar a ausência de Dilma dizendo que “a Davos só vai quem procura promoção pessoal”.

Supomos, então, que neste “4º Davos” do seu mandato ela tenha resolvido “procurar promoção pessoal”. Tanto assim que o sr. Antonio Patriota não vai – provavelmente para não fazer sombra.

Mas, longe de apenas promoção pessoal, o que ela vai procurar é promoção para o seu governo, seus ministros e para o Brasil em geral. Em resumo, vai dizer para os ouvidos capitalistas do mundo ali reunidos aquilo que Stephen Zweig dizia nos anos 30: que “o Brasil é o país do futuro!”. Vai procurar provar que é um grande equívoco a desconfiança em relação ao Brasil e seu futuro, que tem tido espaço na imprensa e em muitos ambientes de negócios internacionais – inversamente ao que aconteceu no segundo mandato de Lula, quando o Brasil chegou a ser quase um xodó dos fazedores de dinheiro em proveito próprio -, e que aqui é que realmente pode estar o novo eldorado capitalista, e não na China ou nos países árabes.

Como uma Branca de Neve de vermelho, levará consigo alguns dos mais sábios dos seus anões, que tentarão convencer os “nervosinhos” e “pessimistas” do mundo inteiro de que as incongruências e inconsistências de política econômica interna, nos resultados fiscais, monetários, creditícios e fiscais – causadores de pressões inflacionárias, insegurança entre investidores e incertezas na população -, são apenas naturais e “parte do processo”.

Ao Mestre, por exemplo, caberia explicar que “contabilidade criativa” é um novo olhar sobre a realidade, e esta é muito saudável. Ao Feliz incumbiria falar do perfeito estado do Tesouro; ao Soneca, dos rumos do PAC; ao Dunga, dos transportes. Branca de Neve dirá que não teme o Lobo Mau.

A missão é da maior importância, pois, no SMD (Segundo Mandato Dilma), a economia brasileira precisa retomar uma taxa de crescimento decente e sair deste brejo do PIB do PMD (Primeiro Mandato Dilma). A retomada exige forte aporte de investidores privados internacionais, já que os nacionais estão curtos de grana e do superávit primário do governo pouco se espera, pois só existe na “contabilidade criativa”.

Erva-de-bicho, guiné, arruda-macho, espada-de-são-jorge, tudo fervido em 3 litros d’água. E muita fé.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 16/01/2014

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