Sinal amarelo nas contas externas

Chamem um exorcista. Causa arrepios a evolução das contas externas, com exportações em marcha lenta, importações em alta e um promissor buraco na conta corrente do balanço de pagamentos – US$ 18,8 bilhões nos 12 meses terminados em outubro. O brasileiro com mais de 40 anos passou a maior parte da vida num país com inflação elevada e sempre a um passo de uma crise cambial. O Plano Real foi lançado há 15 anos, mas a estabilidade só se consolidou na virada do século. Em 1999 o País atravessou a última crise do balanço de pagamentos, com um rombo de US$ 33 bilhões nas transações correntes.Entre 2003 e 2007 o Brasil acumulou superávits na conta corrente.

O saldo comercial, somado às transferências unilaterais (principalmente remessas de trabalhadores no exterior), foi muito mais que suficiente, nesse período, para compensar o déficit estrutural na conta de serviços (royalties, juros, lucros, viagens, fretes e seguros). Em 2006 o saldo em conta corrente chegou a US$ 13,6 bilhões. No ano seguinte encolheu para US$ 1,5 bilhão. Com a aceleração do crescimento econômico, as importações começaram a aumentar mais que as exportações. O descompasso se intensificou em 2008.

O resultado da conta comercial encolheu de US$ 40 bilhões para US$ 24,7 bilhões e o buraco em transações correntes ampliou-se para US$ 28,2 bilhões. O resultado só não piorou em 2009 porque a recessão freou as importações. Mas a tendência mudou, com a reativação da economia. De julho a novembro, o saldo comercial foi 17% inferior ao de igual período de 2008.Para 2010 o mercado financeiro calcula um déficit em conta corrente de US$ 36 bilhões, mas isso dependerá de um superávit comercial de US$ 13 bilhões. Há quem admita, no entanto, a hipótese de um saldo comercial zero. Nesse caso, o déficit nas transações correntes ficará perto de US$ 50 bilhões. Será administrável, mas tenderá a aumentar. A combinação de crescimento econômico e real valorizado manterá no vermelho a conta corrente. Não haverá tragédia enquanto o ingresso de capital compensar o desequilíbrio. Até quando?

Isso dependerá de fatores externos e internos. Lá fora, a gastança fiscal e a política monetária frouxa serão substituídas, num futuro não muito longínquo, por uma política de ajuste. Os juros subirão, o capital ficará mais caro e os investidores poderão buscar outros destinos para seu dinheiro. Internamente, os fatores de atração poderão diminuir, se o governo continuar gastando de forma imprudente, o risco de inflação crescer e o País se tornar menos seguro do que tem sido nos últimos anos. A advertência foi formulada em artigo dos economistas Maria Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore, publicado no Valor na segunda-feira.

No dia seguinte, o mesmo assunto foi discutido, no Estado, em artigo do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central. O Brasil só poderá realizar os investimentos previstos para os próximos anos (exploração do pré-sal, obras para a Copa do Mundo e para a Olimpíada, etc.) se dispuser de capital externo, segundo Goldfajn. De acordo com suas estimativas, o déficit em conta corrente, hoje próximo de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB), poderá chegar perto de 5% em 2016 e depois diminuir para uns 3,5%, com o dólar na altura de R$ 1,70.

Essas projeções dependem de vários pressupostos. Alguns dos mais importantes: não haverá crescimento considerável da poupança interna; o cenário externo será razoavelmente favorável ao Brasil; e o governo não vai destruir as bases da confiança na economia brasileira. Quanto a esse ponto, Goldfajn mostra certa inquietação. A política fiscal será relaxada? Haverá insegurança quanto à orientação cambial?

Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore são mais diretos ao apontar no excesso do gasto público o principal fator de desajuste externo. Nos dois artigos, no entanto, as advertências são formuladas com boas maneiras, sem alarmismo. Mas é difícil manter a calma. A piora das contas externas já começou e tem sido causada principalmente pela farra fiscal. O capital externo tem sido necessário não para sustentar um surto de enormes investimentos, mas a despoupança do setor público. Uma política fiscal melhor aumentaria a poupança interna. Além disso, permitiria juros menores e, talvez, um câmbio menos valorizado. Outras mudanças tornariam a produção nacional mais competitiva. Mas tudo isso está fora do horizonte. O filme começa mal e o roteiro tem um jeitão conhecido.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo do dia 3 de Dezembro

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