Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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Sincronicidade

A recessão brasileira que começou no final de 2014 e pode se estender até parte de 2017 é um dos piores desempenhos econômicos no mundo hoje. Existem fatores externos, comuns a outros países emergentes, e fatores internos ainda mais fortes, gerados aqui no Brasil. É uma combinação tóxica, mas que tem remédio.

Os países emergentes tiveram crescimento expressivo neste século, mas, nos últimos anos, desaceleraram ou se retraíram. O Brasil corre o risco de ter a maior recessão das últimas décadas, inclusive a do início da década de 1980 (começo da hiperinflação), depois de um ciclo de crescimento que fortaleceu nosso mercado interno e nossas empresas.

Até 2007, a economia americana crescia a taxas elevadas impulsionada pelo crédito e pelo consumo. EUA e Europa importavam quantidades crescentes de produtos industrializados da China, que por sua vez importava componentes e commodities de emergentes. Quando esse ciclo se esgotou com o colapso do crédito nos EUA e depois na Europa, a China adotou fortes medidas contracíclicas. Ela concedeu créditos maciços para infraestrutura e investimentos, que geraram mais demanda por commodities nos emergentes, sendo que alguns desses países também adotaram medidas contracíclicas locais, especialmente expansão do crédito e fiscal.

Mas o aumento do crédito na China atingiu seu limite, e o país começou a mudar seu modelo econômico, promovendo mais consumo interno. É um processo gradual, lento e complexo que reduz a demanda (e o preço) de diversas commodities dos emergentes num momento em que economias mais desenvolvidas ainda apresentam fragilidades.

Paralelamente, esgotam-se também as medidas domésticas contracíclicas adotadas em diversos emergentes. O Brasil é caso exemplar. Cresceu fortemente na década passada baseado no forte programa de estabilização econômica, controle da inflação e redução da dívida pública e impulsionado também por absorção de mão de obra e aumento das exportações.

Diante da crise global de 2008, o Brasil adotou políticas monetária e fiscal eficientes que levaram à retomada do crescimento vigoroso em 2010. Esse crescimento foi também baseado na alta das commodities e na manutenção das medidas de incentivo fiscal anticrise adotadas em 2008/09, mas que não eram mais necessárias em 2010. Depois tivemos a “nova matriz econômica”, que promoveu mais expansão fiscal e monetária. Ela agudizou a tendência histórica de aumento do gasto público e gerou o problema atual.

É um processo complexo que sincronizou problemas internos graves com ambiente externo desfavorável. Só sairemos dele com perspectiva firme de estabilidade e previsibilidade econômicas.

Fonte: Folha de S. Paulo, 17/01/2016

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