Sistema de metas de inflação

“O modelo de metas de inflação hoje utilizado em vários países resistiu bem à crise financeira global. Agora, porém, o sistema pode entrar numa fase de importantes mudanças, ligadas à necessidade de prevenir a formação de bolhas especulativas, como a que resultou no colapso da Lehman Brothers.” Conclusão do 11º Seminário sobre o Sistema de Metas de Inflação.

Em maio foi comemorado o 10º aniversário da implantação do sistema de metas de inflação no Brasil. Para isto, foi realizado o 11º Seminário sobre o sistema de metas, com a análise de vários “studies cases”, na abordagem dos vários países que implantaram este importante instrumento de política monetária. Sim, porque o sistema de metas foi e vem sendo bem sucedido em vários países como Canadá, Austrália, Suíça, Nova Zelândia, entre outros. Nos EUA, o Fed não possui um sistema de metas explícito, mas nos bastidores ele opera a política de juro de olho num sistema de metas restrito. A seguir, alguns comentários.

• Dentre os papers mostrados no seminário, do Brasil veio um interessante de dois técnicos do Bacen, Fabia de Carvalho e Andre Minella, mostrando o sucesso do nosso modelo e de como ele convergia com a pesquisa Focus, um levantamento junto a 100 instituições financeiras representativas. Ou seja, a formação de expectativas do mercado caminha junto com o sistema de metas, formando um “fio condutor” para o comportamento da inflação do país.

Na verdade, o sistema de metas de inflação, no esplendor dos seus 10 anos de existência, é um grande sucesso, não deixando de ser um importante balizador de expectativas para os mercados e a autoridade monetária. Isto se torna ainda mais contundente, quando observamos que o nosso sistema é um dos mais transparentes do mundo, o que o coloca na vanguarda da formulação de política monetária.

• Poucas vezes a meta anual não foi cumprida. Na tabela ao fim isto parece bem claro. Na análise do desvio da inflação efetiva em relação ao sistema de metas o Brasil teve problemas entre 2002 e 2004, mas a partir de 2006 o sistema acabou se consolidando, inclusive, sem grandes ruídos, respondendo muito bem à crise financeira atual. Lembremos que a partir de 2002, o país viveu uma grande crise de confiança, com a eleição do PT, daí os problemas no sistema de metas.

• Em termos práticos, o Bacen define a meta da inflação do ano vindouro e a persegue, através de uma prudente política monetária. Esta estratégia, mesmo pecando, às vezes, pelo excesso, acaba sendo bem sucedida, por criar um radar (ou farol) expectacional para os mercados.

Disto se conclui que não é absurdo considerar o sistema de metas de inflação e a autonomia operacional do Bacen uma dos mais importantes “âncoras de credibilidade” da política econômica deste governo e do anterior. Foi da boa gestão do Bacen que o governo atual conseguiu colher os frutos da atual popularidade.

• O sistema de metas de inflação á uma realidade. Veio para ficar. Alguns ajustes podem se tornar inevitáveis, mas no seu “cerne” o controle da inflação e o balizamento das expectativas devem ser preservados. Sobre possíveis ajustes, um debate que vem ocorrendo se relaciona à necessidade de uma “sintonia fina” mais ampla dos Bacens no controle dos ativos e não apenas da inflação de bens e serviços.

• Sérgio Werlang, economista do Itaú Unibanco, e o articulista do Financial Times, Martin Wolf, inclusive, são dois que defendem a criação de um sistema de metas ampliado – chamado também de “metas inflacionárias plus” -, no qual seria incorporado ao modelo o monitoramento do ritmo e intensidade da elevação dos preços dos ativos financeiros.

• Ambos acham que a apreciação contínua das cotações dos ativos, em resposta a uma política monetária frouxa, tende a gerar, mais à frente, uma bolha especulativa, que acabaria por fazer desabar as economias, com falências, depressões e deflações. Sendo assim, é essencial o monitoramento dos ativos financeiros. Neste caso, não seria recomendável a criação de um “sistema de metas plus”, mas sim uma supervisão bancária, ou regulação, mais estreita.

Werlang pensa da seguinte forma: sem falar da inflação de bens e serviços, ocorrendo um elevação muito forte nos preços dos ativos, formando-se uma bolha, os bancos centrais teriam que agir preventivamente, elevando a taxa de juros. Com isto, tentaria-se evitar a posteriori um processo de deflação de ativos, empurrando a economia para a recessão.

• Este debate, na verdade, não é recente. Vem sendo travado na academia há mais de oito anos. Muitas autoridades e acadêmicos se mostram preocupados com a inflação de ativos e a formação de bolhas recentemente ocorrida.

• Mesmo assim, há controvérsias, com muitas críticas contrárias a esta idéia. O problema não é a frouxidão monetária e a formação de bolhas, mas sim a regulação deficiente existente. Daí, a idéia de se criar um “macroregulador prudencial”, como defendeu recentemente o Presidente do Fed, Ben Bernanke. Este teria o papel de atuar em coordenação com os bancos centrais de todos os países, negociando e debatendo regras e normatizações globais para o enfrentamento das várias modalidades de risco.

• Mário Mesquita, diretor do Bacen brasileiro, por exemplo, foi enfático sobre este tema: “Não há, no momento, consenso de que os Bancos Centrais devam passar a ter metas ampliadas, incluindo também preços de ativos, especialmente preços de ações e imóveis. No entanto, é provável que alguns Bacens venham a adotar atitude proativa frente a certos movimentos de preços de ativos, mas sem perder de vista que o regime subjacente deve ser a estabilidade do poder de compra da moeda em termos de bens e serviços”.

• Já Armínio Fraga é contrário à adoção de um alvo formal do mercado de ativos. Ele acha que o sistema tem que ser administrado levando-se em conta a “incerteza genuína” como uma variável determinante, havendo flexibilidade suficiente para responder a alguma distorção nos “preços-chaves” da economia. Ele acha complicado estimar em qual patamar das cotações dos ativos, como ações ou imóveis estaria configurado um cenário de “formação de bolha”.

• Por fim, conclui-se que o mais indicado seria o uso de uma “legislação prudencial”, visando assegurar o grau de segurança e a redução da exposição dos capitais dos bancos. Nada mais acertado. Parafraseando Ilan Goldfajn, “o regime não é uma panacéia, mas é melhor que as outras opções.”

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