Só indiretamente dá para perceber os ”lides”

A nossa presidente continua não dando lide. Para a imprensa.

Já falamos disso em artigo anterior. Mas, de lá para cá, acompanhando alguns fatos do novo governo, foi possível perceber que, se ela não dá lide para fora do governo, para a imprensa em geral, certamente tem dado lide para dentro do governo.

Em outras palavras, o que ela tem dito, e provavelmente exigido, a portas fechadas, nos gabinetes de reunião, transparece indiretamente em palavras de auxiliares seus ou em documentos oficiais ou, ainda, em novas atitudes de pessoas que já atuavam no período Lula.

A mais recente indicação de que a fala de S. Exca. é mais afirmativa para dentro do governo do que para fora pôde ser avaliada pelo texto da ata da reunião do Comitê da Política Monetária (Copom), possivelmente o último lugar onde alguém iria procurar indícios do que pensa e do que se propõe d. Dilma.

Podemos estar redondamente enganados, mas nesse texto encontramos sinais de uma preocupação de governança séria que vai além do habitual tema central do Copom, que é a elevação ou diminuição da taxa básica de juros, a Selic.

Ali está escrito, no item 31 – que muita gente já comentou -, que “a eventual introdução de ações macroprudenciais (sic) pode ensejar oportunidades para que a estratégia de política monetária seja reavaliada”.

Deixando de lado o desejo de comentar o calamitoso, embora crescentemente usado, neologismo – um desrespeito até mesmo à estética vernacular -, notemos que o mercado financeiro reagiu à frase derrubando fortemente os contratos de juros futuros, na BM&F, conforme apontou o jornal Valor. Quem apostava na elevação dos juros perdeu dinheiro e ficou óbvio que o mercado, com o seu habitual imediatismo, interpretou a frase achando simplesmente que a sequência de altas da Selic vai ser interrompida ou até substituída por uma fase de baixas.

Pode ser.

Mas uma outra leitura é possível também.

Quais vinham sendo os fatores que levaram o Copom a ingressar na fase de elevação da Selic nas última reuniões?

Basicamente, a gastança e o relaxamento fiscal do final do período Lula, sob o pretexto de eleger Dilma, mas que resultaram no impulso inflacionário que estamos tendo no momento, com repórteres das TVs empunhando seus microfones nas gôndolas de supermercados para falar dos aumentos de preços dos mais variados produtos, depois que se noticiou o papel importante dos alimentos em geral na formação dos atuais índices de inflação.

Ora, o Banco Central e o Copom reagiram como de hábito, usando a Selic como amortecedora das pressões inflacionárias: se os juros sobem, os consumidores fazem menor uso do crédito, compram menos, a demanda geral se ajusta para baixo, a indústria e o comércio ficam com menos espaço para elevar preços e, no devido tempo, o ímpeto inflacionário se amaina.

Essa receita fez parte do período recente. Mas há uma outra ferramenta para colocar um freio na inflação, que muitos economistas apontavam – o ajuste fiscal, isso é, o corte de gastos do governo – sem que a equipe de Lula tivesse possibilidade de prestar atenção, uma vez que o então presidente não admitia falar disso na disputa eleitoral. E havia ainda a hipótese de se moderar a política de melhoria da renda da população em geral, para encolher o visível descompasso em relação à melhoria da produtividade. Outro assunto detestável para o ex-presidente.

De modo que a frase famosa da Ata indica também que medidas de natureza fiscal e de natureza anticíclica, no que se refere à renda, podem sobrevir. E indica, sobretudo, que a presidente não as descartará caso necessárias. A Ata não as mencionaria, se previsse seu veto ou soubesse que seriam vetadas. O Copom deve ter auscultado Dilma. Havendo sinal verde para políticas fiscal e de rendas mais ajustadas, a política monetária pode ser mais dovish, como disseram alguns financistas, sempre ligados na gangorra imediatista dos juros e imitando o linguajar debiloide de Wall Street. Parece claro que a estratégia do conjunto da política econômica vai se aproximando mais do que recomenda o manual, do que do voluntarismo da chefia. O texto das atas do passado recente era cheio de salamaleques para não pisar nos calos de quem nunca antes na história deste país tinha feito tantos milagres.

Mas houve outros episódios reveladores de uma fala diferenciada da chefia para dentro do governo. Por exemplo, o da representação brasileira na sede da ONU em Genebra, ao receber a exilada iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz de 2003. Na ocasião, a embaixadora do Brasil, Maria Nazareth, disse que o Brasil “apoiava” a posição de Ebadi – para consternação, por certo, do “amigo” do Lula, Ahmadinejad, cujo chanceler, Ali Akbar Salehi, não se furtou de queixar-se, ao Estado, de que seu governo se sentirá “decepcionado” se o Brasil mudar de posição em relação ao Irã. O que – tudo indica – já aconteceu, pois, antes, um dos poucos lides que Dilma dera para a imprensa fora sobre sua oposição ao tratamento que o Irã dispensa às mulheres.

Enfim, não dá mais para ignorar os sinais de que a criatura difere em boa medida do seu esforçado criador.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 14/03/2011

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