Tudo muda, tudo vira. De uma semana para outra o ânimo dos agentes pode sofrer uma transformação considerável. Há duas semana atrás o fantasma da recessão era mais do que uma realidade. Só se comentava que o setor automobilístico estava à beira da falência, que a insolvência, e a possível estatização, dos sistemas bancários era inevitável e que os emergentes sentiriam fortemente o “tranco da crise”.

Passada uma semana, uma suave reversão de expectativas se fez notar nos mercados. Não que tenham ocorrido grandes melhorias, mas os mercados de ativos deram um respirada, mesmo que ainda oscilando sob o signo da volatilidade. Ainda continuamos às “portas” de uma recessão, mas na semana passada a GM já considerava possível caminhar com as próprias pernas, sem a ajuda do Tesouro, dois bancos norte-americanos, o JP Morgan e o Citi, anunciavam resultados positivos no primeiro bimestre do ano, e outras notícias alvissareiras surgiam.

Para “azeitar ainda mais a máquina” desta reversão, tanto o Japão como a China anunciavam mega pacotes econômicos para estimular suas economias. Isto nos passa a impressão que o pior da crise parece ter sido no quarto trimestre do ano passado, com um lento processo de recuperação devendo ocorrer nos próximos meses. Será? Na semana que vem talvez tenhamos um retrato mais claro…

Atentemos para o fato, no entanto, que o mundo já se encontra em recessão, com muitas instituições multilaterais já prevendo taxas negativas de crescimento neste ano de 2009, entre 0,5% e 1,0%, e uma possível recuperação só ocorrendo a partir do segundo semestre de 2010.

No Brasil, as notícias da crise continuam a “pipocar, aqui e acolá”, com os indicadores de atividade mais fracos, mesmo com alguns sinais alentadores, como o retorno do crédito, mais concentrado nas grandes empresas, as vendas do comércio varejista em alta de 1,4% em janeiro contra dezembro, e a inflação sob controle. Em paralelo a este processo aparente de reversão, dois fatos acabaram capitalizando as atenções dos mercados na semana passada. Um, foi o recuo do PIB no quarto trimestre do ano passado, num mergulho surpreendente de 3,6% contra o trimestre anterior, e o outro, a decisão mais agressiva do Copom ao cortar o juro em 1,5 ponto percentual, a 11,25%.

Importante destacar que este corte de juro deverá ter pouco efeito sobre a economia real no curto prazo, dado que estudos empíricos indicam um gap de seis a nove meses entre a adoção deste e a canalização para os consumidores e o setor produtivo. Por enquanto, o que se tem atualmente é a inadimplência crescendo de forma preocupante, para os consumidores e as pequenas e micro empresas, e o spread bancário ainda em patamar indecente, até por causa desta primeira razão. Mesmo assim, devemos saudar esta decisão de corte do juro, pela redução dos encargos com a dívida pública, embora grande parte desta seja composta por títulos prefixados, assim como pela melhoria no ambiente de negócios, com custos financeiros mais baixos no gerenciamento dos estoques e nas relações com fornecedores.

Sobre o tombo do PIB no quarto trimestre, este acabou inevitável diante da “seca de crédito”, tanto externo como doméstico, gerada pela crise eclodida a partir de setembro passado, com a quebra do Lehman Brothers. Esta acabou como a maior queda de PIB entre os BRICs, chegando a mais de 13% em termos anualizados, e 3,6% contra o trimestre anterior, com a indústria despencando 7,4%, pelo “travamento” da oferta de crédito para os segmentos de bens duráveis, com destaque para o setor automobilístico e de eletroeletrônicos, e os investimentos recuando 9,8%, depois de crescerem 8,4% no terceiro trimestre de 2008. O consumo das famílias recuou 2%, as exportações 2,9% e as importações 8,2%, com o consumo do governo avançando 0,5%, decorrente das necessidades de manutenção da máquina pública.

No caso da indústria, à de transformação acabou fortemente impactada, recuando 4,9%, com a cadeia do setor automobilístico como a mais castigada, recuando mais de 40%. Lembremos que os indicadores da indústria em janeiro continuaram fracos, mesmo que mostrando alguma reação contra dezembro. Pelo IBGE, o PIM veio recuando 17,2% contra janeiro de 2008, e pela CNI, as vendas reais acabaram recuando 13,4% nesta mesma base de comparação, caindo também contra dezembro (-4,3%). Neste caso, a venda de veículos até avançou contra dezembro (9,2%), mas despencou 20,6% contra o mesmo mês do ano passado.

Uma boa notícia veio do PIB no ano, crescendo 5,1%, mesmo com o recuo de 3,6% no último trimestre. Isto demonstra que a economia vinha numa forte “velocidade de cruzeiro” até setembro, sendo que no terceiro trimestre o crescimento, em quatro trimestres foi de 6,3%, depois recuando a 5,1%. Se não fosse pela crise, teríamos crescido cerca de 6,5% ao fim deste ano de 2008. Estes dados, no entanto, já fazem parte do passado, importando agora observarmos daqui para frente. Estimativas mais recentes trabalham com um PIB caindo 1% em 2009.

Acreditamos que será inevitável um surto recessivo nestes dois trimestres, com o quarto do ano passado recuando 3,6% e este primeiro de 2009 cerca de 1,5%. Talvez até presenciemos um PIB ainda negativo no segundo trimestre, mas ainda dá para esperar uma lenta recuperação no segundo semestre, com o PIB fechando o ano ainda em crescimento entre 0,5% e 1,5%. A injeção de renda, pelo reajuste do salário mínimo, a inflação em queda e a ampliação do programa de governo assistencialista da Bolsa Família corroboram para esta recuperação. Sim, porque acreditamos que esta virá pelo lado da demanda doméstica, ainda mais se o juro mantiver esta trajetória de cortes contínuos.

Por ora, ao fim deste ano estamos prevendo uma taxa de juros em torno de 9,5%. O IPCA convergindo para a meta de inflação contribui para isto. Por enquanto, em 12 meses, se encontra em 5,9%, mas deve recuar a 4,5% ao longo do ano. Ao fim deste paper, o mercado depois de abrir no terreno positivo, já operava em forte queda… o que aconteceu? Nada. Realmente, vivemos sob o signo da volatilidade.

TRAJETÓRIA DO IPCA (12 meses)

DESEMPENHO DO PIB DERRUBADO PELA INDÚSTRIA
(Trimestre contra o trimestre anterior)

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