O Globo, 18 de Junho de 2006 Recebo de um colaborador a pesquisa do Ibope sobre ética e corrupção realizada no início deste ano em 143 municípios do Brasil. Com o título de “Corrupção na Política: Eleitor Vítima ou Cúmplice” o estudo revela controvérsias na opinião do eleitor brasileiro sobre o tema e propõe a reflexão sobre até que ponto os problemas éticos enfrentados pela sociedade brasileira estão de fato concentrados em suas elites ou se trata de uma conduta social presente em todas as camadas de nossa sociedade. Os resultados são expressivos e confirmam as duas principais hipóteses propostas pelo estudo: 69% dos eleitores brasileiros já transgrediram alguma lei ou descumpriram alguma regra contratual, para obter benefícios materiais, de forma intencional, e 75% acreditam que cometeriam pelo menos um dos 13 atos de corrupção avaliados pelo estudo, caso tivessem a oportunidade. Diante do calendário político eleitoral que se avizinha, sugiro um exame mais atento de pelo menos três aspectos dessas conclusões que considero precipitadas e distorcidas. Primeiro: estão efetivamente diluídos em toda a sociedade os nossos recentes problemas éticos? Segundo: se a corrupção fica evidenciada sobretudo no cenário político, não caberia aos nossos homens públicos uma maior responsabilidade ética diante de assunto eminentemente público? Terceiro: um desvio da conduta ética na esfera privada tem o mesmo efeito social se cometido na esfera pública? Tais questões evidenciam que, na verdade, não apenas a sociedade, mas nossas elites sociais é que confundem as distintas naturezas das esferas pública e privada. E esta tem sido exatamente a questão central de nossa miséria política, o grande entrave para o desenvolvimento econômico e social do país, uma vez que decorrente do bloqueio mental de nossas elites. Conforme sua etimologia, elite não se trata apenas dos materialmente mais abonados de uma sociedade, mas sobretudo dos intelectualmente mais capazes, politicamente mais responsáveis e socialmente mais representativos em termos de liderança. E é sobretudo a omissão ou incultura políticas de nossas elites que resulta em todas as demais misérias sociais. Se já ando farto de ditados simplesmente preconceituosos sobre nosso povo e cultura, não admito mais a velha desculpa esfarrapada de que “o povo tem o governo que merece”, que “o brasileiro é acomodado”, que “macaco que tem rabo de palha não toda fogo no rabo do outro”, ou “quem tem telhado de vidro não dá pedrada no telhado vizinho”. Decididamente não foi com estas jóias do pensamento retrógrado que se construíram as grandes sociedades democráticas, abertas e desenvolvidas da cultura ocidental! Os espaços da opinião pública foram conquistados para a difusão de uma cultura de cidadania e não apenas para a espetacularização dos delitos. Para cada delito publicado, buscou-se a pena correspondente, resultando na fé pública de que no fim a justiça deve prevalecer. E se a mídia é produzida sobretudo pelas elites, há que haver muito maior compromisso de exemplaridade de conduta por parte das mesmas. No que tange ao noticiário político propriamente dito, então, nem se fala. Não podemos usar do mesmo diapasão ético para editar fenômenos de natureza tão distintos como os fenômenos políticos e os da vida cotidiana. Se as ordens civil e política são a essência da construção da cidadania, isso não quer dizer que sejam farinha do mesmo saco! O delito da vida civil privada não tem o mesmo efeito social do mesmo delito cometido na esfera pública. Fraudar um seguro saúde privado não pode ser comparável a fraudar a previdência pública. O desvio de conduta de um agente da lei ou de uma autoridade pública é muito mais perverso para a sociedade do que o mesmo desvio na esfera privada, tão simplesmente por que atinge muito mais gente, e de maneira muito mais difusa e letal, exatamente por que muito mais indefesos somos enquanto ente público. Não! Definitivamente somos muito mais vítimas do que cúmplices da corrupção política! E confundir as distintas naturezas do público e do privado, trocar alhos por bugalhos e diluir a responsabilidade política das elites dirigentes, socializando o prejuízo ético por toda a sociedade, é repetir uma antiga e nefasta tradição de péssimos costumes políticos e de lesa-cidadania! Jorge Maranhão é publicitário e diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão. Email: jorge@professa.com.br

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