Sábado, 10 de dezembro de 2016
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Sobre a morte dos Brics e a ascensão dos Ticks

O “Financial Times” trouxe há alguns dias uma provocativa sugestão. Em texto assinado por Steve Johnson, da seção ‘EM Squared’, a argumentação é que, com a profunda recessão econômica no Brasil e na Rússia, o acrônimo “Brics” perdeu enorme vigor e não faz mais sentido na acepção formulada originalmente pelo economista Jim O’ Neill há 15 anos.

Brasil e Rússia sabotam o imaginado papel dos Brics como motor do crescimento global. Se investidores buscam um novo ponto brilhante no firmamento dos mercados emergentes, o jornalista do “FT” sugere olhar para os Ticks —novo acrônimo a agrupar China, Índia, Taiwan e Coreia do Sul.

Não se trata apenas de buscar uma coincidência geográfica –todos os membros estipulados dos Ticks são asiáticos. Tampouco de excluir Brasil e Rússia apenas pela péssima performance econômica atual.

Um dos principais diferenciais do novo grupo em relação ao “B” e ao “R” dos Brics é a ausência de commodities no quadro de suas vantagens comparativas. De fato, parte importante da economia dos Ticks –e notadamente da Coreia do Sul– se concentra em atividades de alto valor agregado.

Vale notar que a Coreia do Sul, com seus mais de 4% do PIB destinados a pesquisa e desenvolvimento, é, em termos percentuais, o país mais investidor em inovação. A China ruma para destinar 2% do seu produto a ciência e tecnologia e já disputa com os EUA posições de ponta como nação que mais registra patentes na OMPI, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual.

Também Taiwan acomoda grandes empresas de alta tecnologia e fundos de investimento especializados em start-ups de base tecnológica. E a Índia, apesar de suas imensas desigualdades socioeconômicas, também se apresenta pouco dependente do preço internacional das commodities para a competitividade de suas exportações.

A conhecida competência indiana no campo das tecnologias da informação vem ganhando pesado reforço com o sucesso do programa “Make in India”, atraindo capitais industriais do mundo todo que hoje deixam a China afugentados pelos crescentes custos dos insumos e buscam alternativas em termos de escala e baixa remuneração dos fatores de produção.

O futuro então pertence aos Ticks, e os Brics devem ser considerados relíquia?

Não tão cedo. Os Brics deixaram de ser apenas um agrupamento de classes de ativos delimitadas por países para tornar-se uma nova plataforma de governança global.

Além de um acordo entre os cinco países que prevê a reserva e coordenação econômica para o advento de crises de liquidez (o chamado Acordo Contingente de Reservas ), os Brics já têm em funcionamento o seu Novo Banco de Desenvolvimento. Seus sócios já contribuíram as primeiras injeções de capital no banco que começa a financiar atividades já em abril deste ano —inicialmente em projetos de energia.

Há, ainda, uma série de cooperação em outras áreas, destacando-se uma cúpula anual de chefes de Estado.

É inimaginável pensar numa cooperação mais profunda entre os Ticks. Embora Xi Jinping tenha se reunido com seu colega taiwanês Ma-Ying-jeou em novembro de 2015 (o primeiro encontro entre líderes de China e Taiwan em quase sete décadas), a política de Uma Única China (One China Policy) defendida por Pequim estabelece tetos baixos para o potencial de relacionamento entre os dois países.

A Coreia do Sul já é um país desenvolvido –não pode ser enquadrada como economia emergente. Sua renda per capita em termos de poder de paridade de compra é maior do que a da Itália, a da Nova Zelândia e a da Espanha. Mesmo Taiwan já superou os US$ 30 mil de PIB per capita.

Claro, a proeminência das empresas intensivas em tecnologia é um dos grandes atributos de poder e prosperidade no século 21.

Nesse caso, porém, fica difícil imaginar em que medida seria possível, a partir delas, criar produtos específicos de investimentos rotulados “Ticks”, ou mesmo imaginar que tão somente a vanguarda tecnológica de companhias dos Ticks serviria como ponto de apoio para a costura de alianças em outros itens da agenda internacional, como fazem os Brics.

E ainda cabe discussão se a principal razão dos percalços por que passam Brasil e Rússia é, de fato, a queda no preço internacional de commodities.

O Brasil carrega consigo os gigantes problemas de disfuncionalidade da política, elevada corrupção e ausência de reformas modernizantes.

A Rússia também apresenta marcadas inseguranças jurídicas e institucionais que, somadas às sanções do Ocidente ao país por sua atuação na Ucrânia e na anexação da Crimeia, machucam mais o desempenho do país do que sua dependência na exportação de petróleo e gás.

A história é longa e o imenso potencial de Brasil e Rússia não pode ser descartado. Ninguém apostava em Índia ou Argentina em anos recentes.

Nova Déli com Narendra Modi e Buenos Aires com Mauricio Macri transmitem a ideia de “sob nova direção” que vem entusiasmando investidores no mundo todo.

Se apresentarem os sinais certos nos próximos anos, Brasil e Rússia também podem reemergir.

Até que isso aconteça, a inércia política em Brasília e Moscou continuará a sabotar o desempenho econômico desses gigantes, empanar o brilho dos Brics e estimular a proliferação de acrônimos nos mercados emergentes.

Fonte: Folha de S. Paulo, 10 de fevereiro de 2016

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