Autor Convidado: Paulo Roberto de Almeida

Uma das mais propagadas acusações dos antiglobalizadores contra a globalização é a de que esse processo aprofunda a miséria e a desigualdade distributiva do mundo capitalista, contribuindo para o aumento da concentração de riqueza nas mãos de uns poucos privilegiados e reservando apenas pobreza e desemprego para a maior parte das pessoas, seja nos países pobres, seja para os pobres dos países ricos. Em poucas palavras: a pobreza mundial teria aumentado de maneira constante e acelerada com o processo de globalização. Seria isto verdade? Nada mais distante da realidade, como eu tenho me esforçado por demonstrar, não apenas mediante contra-afirmações opinativas ou desprovidas de fundamentos empíricos, mas com base em dados estatísticos verificáveis e oficiais, como podem ser os da ONU, do Banco Mundial ou de entidades congêneres. Nessa tarefa, tenho sido, creio, um dos primeiros comentaristas, no Brasil, a divulgar os trabalhos do economista catalão, da Columbia University, Xavier Sala-i-Martin, que tem pesquisado e trabalhado sobre os dados da distribuição mundial da renda e sua evolução ao longo dos últimos trinta anos. Essas três décadas correspondem, como todo mundo sabe, ao “espocar da globalização”, isto é, a fase final do socialismo (anos 1970-80) e o desaparecimento das últimas “terras incógnitas” para o capitalismo, com a incorporação da China e ex-satélites soviéticos à divisão mundial do trabalho (anos 1990 e início do novo milênio). Pois bem, o seu último trabalho, em fase de publicação: ‘The World Distribution of Income: Falling Poverty and… Convergence, Period (texto original de 9/10/2005; a ser publicado no The Quarterly Journal of Economics, vol. 126, 2006), demonstra não apenas que a pobreza tem diminuído, mas que a distribuição mundial de riqueza também tem melhorado. E agora antiglobalizadores? Na verdade, eu também tinha partido da idéia de que a globalização aumentava a riqueza, de modo global – ao alocar investimentos em regiões antes não integradas à economia mundial –, mas aprofundava as desigualdades distributivas, dentro dos países e entre eles, sobretudo entre ricos e pobres. Tanto foi assim que no ensaio A globalização e as desigualdades: quais as evidências?, em um dos meus livros (cap. 8 de A Grande Mudança: conseqüências econômicas da transição política no Brasil. São Paulo: Códex, 2003; p. 117-122), argumentando com base em estudos do PNUD – que depois se revelaram errôneos –, eu também demonstrei adesão à tese da “divergência” e da “concentração de renda”, isto é, o distanciamento cada vez maior entre os países e a concentração de renda dentro dos países, nos estratos mais ricos da população. Tentei, no entanto, separar os fatores causais propriamente domésticos – isto é, derivados de políticas econômicas nacionais – daqueles que poderiam ser eventualmente atribuídos à globalização. Sempre pronto a contrariar meus argumentos cada vez que os fatos me indicam o contrário do anteriormente afirmado, revisei logo depois essa linha analítica ao tomar conhecimento de um dos trabalhos de Xavier Sala-i-Martin, The Disturbing ‘Rise’ of Global Income Inequality (NBER Working Paper 8904, April 2002), que resumi e discuti em meu trabalho Três vivas ao processo de globalização: crescimento, pobreza e desigualdade em escala mundial. Não vou agora retomar todos os pontos enfocados em meus dois ensaios citados, nem expor novamente aquele artigo de Sala-i-Martin, mas quero, neste momento, apresentar resumidamente os argumentos do economista catalão no seu novo ensaio, “A distribuição mundial de renda: pobreza declinante e… convergência, ponto”. Procurarei não entrar em detalhes técnicos (ou seja, econométricos), mas apresentarei sua metodologia e discutirei suas principais conclusões, que podem de todo modo ser conferidas no original mais acima indicado. Este é o sumário completo deste meu trabalho: 1. De volta ao problema do crescimento da pobreza mundial, aliás equivocado 2. A diminuição da pobreza mundial: velhas e novas evidências 3. Os dados do problema: questões metodológicas e descobertas empíricas 4. A pobreza no mundo: diminuindo, a despeito de tudo 5. O mundo é menos desigual: como isso ocorre, e por quais razões? 6. Uma palavra final: sorry antiglobalizadores, vocês precisam mudar o discurso… Para ler o restante, efetue o download deste trabalho.

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