“O único lugar onde se pode ter queijo grátis é numa ratoeira”. (Provérbio Russo)

O presidente Lula chamou de “imbecis” e “ignorantes” aqueles que criticam o Bolsa Família, pois acham que os pobres podem ficar preguiçosos com a ajuda em vez de buscar trabalho decente. Eu sou um desses “imbecis ignorantes”, segundo o critério do sábio e culto presidente. Não que eu considere a ajuda média de quase cem reais a cada beneficiado quantia suficiente para uma aposentadoria precoce e tranqüila. Não é. Mas pode sim colaborar com certa passividade. E sem dúvida estimula o mercado informal de trabalho. Explico.

Digamos que Dona Maria é uma das milhões de pessoas agraciadas com o programa do governo, e ganha R$ 100 todo mês sem sair de casa. Agora vamos supor que lhe foi oferecido um emprego com o salário de R$ 500 mensais. Parece óbvio que Dona Maria nem vai pestanejar, e rapidamente vai abraçar a oportunidade e ralar para ganhar os quinhentos reais. Mas ao fazer isso, ela está abrindo mão daqueles cem reais que chegam todo mês sem esforço algum. Ora, essa quantia representa 20% do novo salário dela, que exige em contrapartida um árduo esforço diário. Se ao menos ela pudesse aceitar o emprego e manter o benefício…

Eis que surge uma alternativa para tanto: Dona Maria pega o emprego, mas “por fora”, sem assinar carteira. Ela vira uma informal. O empregador agradece também, pois os encargos trabalhistas nesse país não são moleza: eles praticamente dobram o custo do empregado (isso é curiosamente chamado de “conquista trabalhista”). E dessa forma, Dona Maria pode continuar alegando estar desempregada oficialmente, mantendo sua esmola estatal. Agora ela recebe R$ 600 por mês.

Quantos casos reais como esse exemplo hipotético existem? É impossível saber. Mas não devem ser poucos. E o mais paradoxal é que o governo comemora o aumento de beneficiados pelo programa. Ou seja, em vez de uma preocupação com a estratégia de saída, já que não é o ideal de ninguém viver de esmolas estatais, o governo acha ótimo quando mais gente precisa contar com sua ajuda para sobreviver. Já são mais de dez milhões de brasileiros beneficiados diretamente, ganhando o peixe em vez de aprender a pescar. É eleitor até não poder mais!

Longe de mim, especular que o “altruísmo” estatal, realizado com o suor alheio dos pagadores de impostos, poderia ter como objetivo real os interesses eleitoreiros de alguns políticos. Sabemos que políticos não são “homens comuns”, sujeitos às paixões do egoísmo. Eles são praticamente santos, preocupados com o “bem-geral”. Basta dar uma volta em Brasília para comprovar isso. Mas é que o cão não morde a mão que o alimenta. E quando o governo cria um mecanismo de dependência, fica complicado imaginar essa gente toda votando contra os donos da ração, já que eles podem temer um corte nos benefícios com a mudança de governo.

Claro que o atual partido no poder não seria cruel a ponto de explorar esse medo, espalhando o terrorismo de que a oposição acabaria com a esmola. Mas o risco sempre existe, pois a tentação de apelar para quaisquer meios com a meta de se manter no poder pode ser irresistível. Por puro altruísmo, naturalmente. É que para fazer a “justiça social” é necessário estar no poder. E tudo que os políticos desejam é fazer essa “justiça”, colocando seus próprios interesses abaixo deste nobre ideal, sacrificando-se em nome do coletivo. O socialismo é lindo!

Mas como eu ia dizendo, por essas e outras críticas que tenho ao Bolsa Família, sou considerado um “imbecil” e um “ignorante” pelo nosso presidente. De fato, eu devo mesmo ser um imbecil por desconfiar das intenções dos governantes, que sempre demonstram tanta integridade. Sou um ignorante por achar que, se o governo realmente quisesse ajudar os mais pobres, poderia cortar seus gastos, para reduzir os impostos e estimular o empreendedorismo. Sou imbecil por achar que não é o governo que cria riqueza, mas a iniciativa privada, tão prejudicada justamente pelo excesso de burocracia e intervenção estatal. Por fim, sou um ignorante por achar que esmola estatal não é solução para a miséria, mas sim investimento em educação e liberdade econômica, para que os empresários possam criar os empregos que garantem dignidade às pessoas.

Se eu fosse ao menos mais inteligente e culto, poderia até ser um eleitor do PT…

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12 comments

  1. O sujeito da esquina

    Se você é imbecil e ignorante não me cabe dizer. Mas com certeza, uma coisa não consegue ver e trazer. INFORMAÇÃO.

    O link abaixo é ótimo para uma análise melhor:
    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/05/07/o-tcu-e-o-bolsa-familia/

    O universo de família que burlam o MDS para angariar o benefício é muito pequeno, e ainda sim é composto por políticos.

    Por que a quantidade de Donas Maria que burlam o MDS é tão pequeno? E ainda sim o TCU consegue verificar (a ajuda indevida não tem muita sobrevida)?
    Porque as outras Donas Maria não conseguem se tão anti-éticas como você?
    Você vem com panfletagem em vez de informação.

    Na verdade, eu te acho um covarde, isso sim.

  2. A carioca

    É… quem cita o tal jornalista de serviços consegue mesmo o tal queijo de graça.

  3. O sujeito da esquina

    Informação, cadê a informação carioca.

    Ser um Rodrigo Constantino qualquer um consegue ser. Agora ver e trazer informação é mais complicado. Precisa ir na esquina, no campo, na indústria. não dá para fazer isso encastelado no condomínio.

  4. A carioca

    Ih longe de mim querer “informar” deixo a nobre missão para o senhor…só fiz um comentário, quem cita o jornalista de serviços come queijo de graça.

  5. Joao Carlos

    Hahahaha… tem coisa que é piada pronta mesmo.

    O “O sujeito da esquina” não coloca o nome no comentário e ainda acusa o colunista de covarde.

  6. O sujeito da esquina

    Os articulistas tem acesso ao meu e-mail. Além disso, postava com meu nome. Mas prefiro ” o sujeito da esquina”.

  7. Franklim

    Com informação ou sem informação o problema do Bolsa Família, ou como costumamos brincar na escola: “Bolsa Esmola”, é vincular o benefício à presença do aluno na escola. Isso com certeza deveria ser modificado.

  8. Rubens Forattini Jr

    Rodrigo, parabéns pelo texto. Didático. Lula tem provocado sentimentos inferiores de indignação, nojo, revolta, mas não havia ainda ofendido profundamente os brasileiros esclarecidos e éticos. Creio ser esse um momento singular, em que a criatura passou a expelir definitivamente a sua verdadeira essência, a atrair para si os maiores tumores da política nacional e a descer uma trilha tortuosa e irreversível do mal. Lula está condenado, e todos aqueles que dele se sustentam. Nem os verdadeiros imbecis e ignorantes do Brasil, que votarão em Dilma, os merecem.

  9. caceta

    Bom,

    Não acho que você é imbecil e ignorante! Acho que é um calhorda.
    Que bom que gente como você é apenas minoria com complexo de maioria.

  10. Carlos Teixeira

    Rodrigo,
    Seus questionamentos são pertinentes. Com certeza, alguns dos beneficiários podem ser até incentivados a passividade. Mas, por R$100/mês, temos que concordar é muito pouco. O IPEA produziu um estudo mostrando os benefícios desses programas de transferencia de renda condicionado no Chile, México e Brasil. A injeção de recursos em uma área carente motiva aqueles que querem trabalhar e progredir, sejam produzindo, comprando e vendendo. Não precisamos ter compatriotas migrando ilegalmente para outros países, se sujeitando a uma vida que não desejamos a ninguém.

    Você toca no ponto chave ao chamar a atenção que se o governo estivesse mesmo preocupado com os mais pobres deveria focar na efetividade dos gastos públicos. Fiz uma conta rápida e estimo que por mês a ineficiência estatal custa algo como R$21 bi/mes (o bolsa família custa algo como R$1bi). Junte-se a isto a corrupção, responsável, estimo em cerca de R$7bi/mes. Ou seja, R$28bi/mes, sendo conservador, são desperdiçados. Em outras palavras, um programa sério de governo poderia reduzir seus gastos desnecessários em R$28bi, dobrar o bolsa família, reduzir a carga tributária e aumentar os investimentos em educação, saúde e segurança.

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