Sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Temer é melhor ou pior que Itamar?

Nos últimos dias de Dilma Rousseff à frente do Planalto, muitos analistas se arriscaram a fazer um paralelo entre Michel Temer e o último vice a assumir o governo após um processo de impeachment do titular. A comparação com Itamar Franco, a princípio, fazia sentido. Afinal, os dois nomes tinham muito em comum: ambos poderiam ser considerados políticos veteranos do PMDB, que não entusiasmavam o eleitor comum e, além disso, assumiam o poder após inúmeras acusações de corrupção contra a administração de seus antecessores. No entanto, após alguns dias de administração Temer, é possível hoje apontar mais diferenças que semelhanças entre o presidente interino e Itamar.

Diante do nó que se transformou a economia brasileira e de irrefutáveis provas de corrupção existente nos governos do Partido dos Trabalhadores, Michel Temer tomou posse cercado de fortes esperanças. Aqui está a primeira diferença. Itamar foi recebido com certa indiferença e seus hábitos peculiares eram mais comentados que sua gestão. A oposição, naquele início de anos 1990, não era agressiva, ao contrário do que ocorre hoje, com a esquerda em uníssono chamando o novo mandatário da nação de “golpista”.

Durante a gestão Itamar, o principal nome do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, não queria o ministério da Fazenda e assumiu de bom grado o cargo de chanceler. Depois, a contragosto, assumiu a pasta que comanda a economia – e, ao controlar a inflação, virou candidato e conquistou dois mandatos presidenciais. Hoje, o principal nome do PSDB neste governo queria a Fazenda e se contentou com o ministério das Relações Exteriores. Uma pasta turbinada com o comércio internacional,  é verdade. Mas longe de trazer votos para bancar uma candidatura a presidente, como José Serra pretende, em 2018.

O principal desafio da equipe econômica de Itamar Franco era acabar com a inflação. O povo brasileiro já convivia com a alta de preços há cerca de vinte anos. Ou seja, estava desesperançado e calejado pelo fracasso de pirotecnias macroeconômicas como os Planos Cruzado e Collor. De qualquer forma, o sucessor de Fernando Collor conseguiu bater o dragão inflacionário. Hoje, vivemos numa estabilidade razoável de preços desde 1994. Assim, as prioridades econômicas de 2016 são diferentes. Há neste momento dois grandes desafios diante do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles: destravar a economia e conter os gastos públicos. Por enquanto, não há razão para duvidar da nova equipe econômica. A dedicação para resolver esses dois problemas será total e sobra capacidade no time escolhido para a tarefa.

Michel Temer e Itamar Franco tinham em comum uma grande experiência na vida pública. O paulista assumiu a chefia do país com 75 anos. Já o mineiro estava na casa dos 62 anos quando vestiu a faixa presidencial. Mas, apesar de vários anos dedicados à política, Itamar não era o que se chama de “raposa felpuda” entre os analistas de Brasília. Era impaciente, explosivo e rancoroso. Segundo uma frase atribuída a Tancredo Neves, “Itamar guardava a mágoa na geladeira”. Já Temer é pragmático, conciliador e racional ao extremo.

Enquanto Itamar era teimoso demais, Temer é bastante flexível e mostrou-se sensível à opinião pública, já mudando de opinião várias vezes. A última delas foi ressuscitar o Ministério da Cultura, que tinha virado uma secretaria. O novo presidente mostra-se solícito em agradar a grupos que, volta e meia, têm interesses diametralmente opostos. Isso pode trazer muitos problemas ao Planalto num futuro próximo. Além disso, é possível detectar que a composição de forças na Esplanada dos Ministérios privilegiou os chamados políticos fisiologistas. Por conta deste movimento, talvez o novo governo tenha dificuldades com o toma-lá-dá-cá que se estabelece no Congresso a cada votação importante que se aproxima.

O fato é que Itamar passou à história como um presidente de sucesso. Entre 1992 e 1994, o Brasil dominou a inflação, ganhou a Copa do Mundo e elegeu o candidato da situação à presidência. Conseguirá Temer fazer o mesmo? Pode ser. Mas percebe-se que em seus primeiros dias de poder ele já sofre ataques que extrapolam a esquerda que defendeu Dilma até o último minuto.

Há pontos que demandam cuidado por parte do novo inquilino do Palácio do Planalto. O primeiro é o número considerável de idas e vindas em decisões deste governo. Esse comportamento pode passar duas mensagens. A primeira é de fraqueza. A segunda é que, sob pressão da opinião pública, o governo cede. E todos sabem que governar, muitas vezes, é tomar medidas amargas. Se o governo não consegue manter o fim do MinC, por exemplo, o que dizer de algo bem mais complicado, como a reforma da Previdência?

Outra questão delicada é a percepção de que o deputado Eduardo Cunha dá boa parte das cartas nessa gestão (isso pode até não acontecer, mas muito têm essa opinião). Cunha, que até a votação do impeachment foi tolerado pela mesma sociedade que pedia a saída do PT, somente goza de popularidade dentro das paredes do Congresso Nacional. A proximidade com o presidente afastado da Câmara Federal pode até ajudar no relacionamento com os deputados. Mas rapidamente pode se transformar numa aposta de alto risco para o futuro político do novo presidente.

Por fim, há o caso das gravações entre Sergio Machado, ex-Transpetro, e Romero Jucá, ministro do Planejamento. Quando eclodiu uma suspeita pairando sobre Henrique Hargreaves, então ministro da Casa Civil, Itamar exonerou-o do cargo. Ele só viria retomar o ministério depois de três meses, já inocentado. Noutra ocasião, o senador Antonio Carlos Magalhães pediu uma audiência presidencial e deixou vazar que que tinha sérios indícios de corrupção federal. Itamar, então, abriu as portas da reunião aos jornalistas que cobrem o Planalto e desafiou o senador a fazer as denúncias em público. Antonio Carlos, soltando fumaça, deu por encerrada a conversa.

Houve quem defendesse a exoneração imediata de Jucá. Mas Temer preferiu ver para onde o vento sopra antes de tomar uma decisão. Numa conversa com o jornalista Jorge Moreno, de O Globo, travou-se o seguinte diálogo. Temer disse que iria esperar a coletiva do ministro para decidir se exonerava ou não o senador do PMDB. Moreno, então, perguntou:

– E se as explicações não forem convincentes, o senhor vai demiti-lo?

Resposta de Temer:

– Acredito que ele próprio o fará.

Isso é puro Temer. Bem diferente de Itamar.

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