Em termos históricos mais recentes, podemos dizer que o século XIX foi o do pensamento. Nada, é claro, que se compare à Grécia Antiga ou ao Renascimento, mas é inegável que na centúria dos mil e oitocentos surgiram pensadores magistrais nas várias áreas do conhecimento. Floresceram também grandes escritores e pintores e, inclusive a moda revelava requintes em bordados, brocados, rendas, luvas, plumas, chapéus.

O século XX foi o da matéria. Continuou a produção intelectual de excelência, mas em menor quantidade. E o Brasil, como não podia deixar de ser, copiou ou adaptou fatos externos. Naturalmente, de acordo com nosso peculiar contexto que refletia a evolução histórica do país.

Até aproximadamente a primeira metade do século passado, a educação brasileira, com forte influência de religiosos católicos, apresentava boa qualidade. E tanto nas famílias quanto nas escolas, crianças e jovens aprendiam valores que os norteariam pela vida afora. Falar a verdade, ser honesto, cultivar o amor à pátria eram noções que se assimilava através da disciplina, da convivência com os colegas, do respeito para com os professores. A bandeira nacional era hasteada no pátio do colégio, todos os hinos pátrios decorados com gosto e alegria, havia orgulho em desfilar nas comemorações das datas cívicas.

Não faltará quem diga que naquele tempo havia repressão exagerada dos costumes, falsidade, hipocrisia. Entretanto, não se pode negar que as relações eram mais estáveis, que o romantismo enfeitava a vida com nuances de emoção e beleza e que havia mais respeito e compostura entre as pessoas.

Seria essa uma visão elitista? De forma alguma, pois mesmo os humildes se revestiam de dignidade e o tratamento entre classes era cordial, sobretudo nos lares onde os empregados pareciam membros da família. Até os políticos, que sempre fizeram de seu mister mercancia de grosso trato, tinham certo comedimento e não abusavam dos crimes hoje tidos como naturais pela sociedade. Os valores da época inibiam aqueles que necessitavam de votos e a liturgia do cargo era praticada com a devida elegância. Seria inadmissível a alguns anos atrás, que um presidente da República fizesse diante do mandatário de outro país comentários chulos com referência, por exemplo, ao Ponto G, ou que usasse continuamente conversa de botequim ao discursar.

Tudo é processo e o fenômeno da urbanização trouxe, no nosso caso a partir da década de quarenta, a diversificação dos comportamentos, o aumento de grupos sociais, a diminuição da força monopolista da Igreja católica. Houve também o avanço dos meios de transporte e comunicação, o que uniu imensas distâncias e rompeu isolamentos. A mulher se tornou mais livre, passou a estudar, saiu de casa para trabalhar e assumiu, inclusive, profissões antes reservadas aos homens. Progressos sem conta na medicina, na ciência, na tecnologia aconteceram em escala mundial e alcançaram o Brasil. Melhorou o nível de vida mesmo das populações mais pobres e a massa teve acesso a bens de consumo antes restritos às classes altas.

Portanto, o século XX, malgrado os sistemas totalitários, comunismo e nazismo, que infelicitaram aqueles que os experimentaram, trouxe em seu bojo grande progresso, sendo que o mundo de modo geral se tornou mais democrático e próspero.

Entretanto, como tudo que deriva do ser humano contém o bem e o mal, nenhuma civilização que chegou ao apogeu nele se manteve. A decadência sempre foi inevitável devida à ganância, ao uso indevido do progresso, ao abuso da liberdade convertida em liberalidade. E, assim, se repetiram ao longo do tempo ciclos de evolução e involução.

Agora, em meio ao progresso, se atravessa uma época de decadência moral. No Brasil acentua-se o individualismo. Perdeu-se o sentido de pátria, com exceção do ufanismo ridículo relativo ao futebol. Valores antes existentes estão em extinção e anti-heróis são exaltados. Os piores exemplos vêm das autoridades constituídas e as instituições se desagregam. A vida se torna cada vez mais frágil diante da violência e da acentuação da impunidade, enquanto a morte se banaliza. Acabou a liturgia do cargo e impera a vulgaridade. A pressa torna as relações superficiais e insatisfatórias. A TV tomou o lugar da família e da escola, dita comportamentos e estimula anti-valores. A educação atingiu o nível mais baixo e professores apanham de alunos. A mentira e a corrupção dos governantes, largamente praticadas, são aceitas com naturalidade pela sociedade e alguns indivíduos dizem: “se eu estivesse lá faria a mesma coisa. É o que se pode chamar de exaltação ao cinismo.

Mas como tudo está em perpétuo devir, no bojo das transformações outro ciclo está em andamento. No nosso caso, quem sabe que ao cabo de muitas gerações alguma coisa muda. Lembremos, então, do que disse Euclides da Cunha: “estamos fadados à civilização, ou progredimos ou desaparecemos”.

Deixe um comentário