Tempo de despertar

"O hiato de lideranças deve servir como um despertar para o nosso espírito democrático"

Historicamente, a política brasileira é um território sem lei. Os poderosos pensam que tudo podem, tratando o povo como uma horda de tolos ignorantes. Felizmente, o processo civilizatório, em sua dimensão institucional, é uma forma de contenção do absolutismo do poder pela razoabilidade dialética da democracia. Não se trata de uma fórmula perfeita. A política, em vez de uma promessa de perfeição, é só – e somente só – o campo aberto da possibilidade humana, a ser preenchido pelas nossas melhores virtudes, mas também sujeita a nossos piores defeitos.

Sim, estamos descrentes e desiludidos, mas nossa angústia por um país melhor não pode nos levar a cair na armadilha do cinismo demagógico. O roteiro é conhecido: basta olhar o ontem e ver com os olhos da razão. A memória mostrará o ímpeto populista radical que, através de um mentiroso discurso social, buscava com desfaçatez o sucesso. Vamos lá, a realidade é nua e crua: a mentira é a principal arma de persuasão dos demagogos patológicos.

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Essa gente não tem limites. Se preciso for, vendem a mãe e entregam a avó. O demagogo patológico é um louco que pensa que é são. É um mentiroso contumaz. Como a verdade tem gosto de água benta, prefere a cachaça da falsidade cotidiana. E, assim, se mantém inebriado em seu personalismo narcisista, criando um mundo fantasioso no qual pensa ser um anedótico rei onipotente. Passado o porre, resta a ressaca de 14 milhões de desempregados, estagnação econômica e um explosivo déficit público.

Em tempo, o Brasil está mudando. A velha política está ruindo entre os profundos pilares do patrimonialismo estatal parasitário. Não há como prever como e nem onde iremos parar. A única certeza é que teremos um país diferente, com novos desafios e cheio de possibilidades. Todavia, é hora de aprendermos, definitivamente, que os complexos desafios do mundo contemporâneo são incompatíveis com uma política desonesta e inconfiável.

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Objetivamente, as pessoas não aceitam mais ser enganadas, sendo os recentes levantes populares globais uma clara reação de povos cansados de ser objetos, e não sujeitos, da política. No caso brasileiro, a desconexão da classe política com os anseios reformadores da sociedade está atingindo um perigoso ponto de tensão, exacerbando ânimos conflitivos e a irracionalidade dos interesses. Ora, democracia requer abertura reflexiva e consciência integradora. Logo, não será o caos dos desesperados que nos trará a justa solução para os nossos problemas.

Em sua essência, a política é uma instância de mediação social que deve usar o diálogo plural como mecanismo eficaz de composição de diferenças. Dessa forma, precisamos de líderes virtuosos que, com coragem e decência, assumam a responsabilidade pública de bem conduzir os assuntos republicanos. O atual hiato de lideranças deve servir como um despertar para o nosso espírito democrático, que, embora possa adormecer, jamais abdica da capacidade de sonhar.

No final, será a nossa participação cívica que determinará o grau qualitativo das mudanças que virão. Quando a cidadania assume a sua inerente responsabilidade histórica, a democracia se transforma no ambiente político do progresso. Agora, se nos acovardarmos, mais uma vez o cinismo dos demagogos sorrirá para o poder. Até quando, portanto, seremos vítimas e, não, os legítimos protagonistas dos destinos democráticos de nosso país?

Fonte: “Estado de Minas”, 06/06/2017

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