Tempos diferentes

Continuamos monitorando com uma lupa os movimentos da presidente reeleita, de olho nas decisões a serem tomadas, principalmente na esfera econômica. Poucas são as novidades, duas semanas depois do pleito. A nomeação do novo ministro da Fazenda continua despertando a atenção de todos, pois a partir desta será possível definir qual o rumo da política econômica. Esta indicação, no entanto, segue em “banho maria”.

O mercado deve ser encarado como um “fiscalizador” das ações do governo

Dois são os nomes mais fortes, Nelson Barbosa e Henrique Meirelles, com chances maiores para o primeiro. Meirelles é da cota do ex-presidente Lula, seria um candidato interessante, mas não goza da simpatia da presidente. Barbosa foi secretário-executivo da Fazenda e pelos seus movimentos recentes, com várias palestras sobre os rumos da política fiscal, deve ser o escolhido. Na central de boatos, já se cogitou de Barbosa ir para a o Planejamento e Meirelles para a Fazenda. Outra hipótese seria Meirelles voltar para o BACEN. Tudo, no entanto, são especulações. Na opinião de algumas fontes, Dilma resolveu adiar esta nomeação, visando preservar o novo ministro, dada a divulgação recente de vários indicadores negativos. O receio aqui seria gerar um desgaste prematuro ao novo ministro. Realmente, foram vários os indicadores negativos nestas duas semanas pós-eleições.

Os dados fiscais de setembro registraram um rombo recorde de R$ 25 bilhões, a balança comercial no ano até setembro foi deficitária em US$ 1,8 bilhão, a indústria deu uma parada em setembro (-0,2% mensal), depois de dois meses avançando, a taxa câmbio se depreciou ainda mais por estes dias, já em torno de R$ 2,56, e a inflação, pelos IGPs, mostrou aceleração, impactada no atacado pelos preços agrícolas e por este câmbio depreciado. O IPCA, também foi divulgado, recuando de 0,57% para 0,42% em outubro, mas em 12 meses superando o teto da meta (6,59%). E o pior é que nos próximos meses algumas pressões inflacionárias adicionais devem ocorrer, depois do reajuste da gasolina de 3%, câmbio pressionado (desde o dia 1/9, 12%, a R$ 2,56), vários reajustes de energia elétrica, como da Light (17,7%), sem esquecer os choques agrícolas imprevistos. Neste contexto, não será surpresa se o Copom sancionar mais um ajuste da taxa de juros na reunião do dia 2/12 (falemos sobre isto adiante).

Na ata do Copom da semana passada, considerada branda, foi dito que é preciso se manter “especialmente vigilante” contra a inflação. Isto pode sinalizar (ou não) o início de um novo ciclo de elevação do juro. Esta Consultoria acredita num ajuste agora em dezembro, com dúvidas sobre sua intensidade (0,25 ponto percentual ou 0,5 p.p.), e mais alguns, não sabendo em que reuniões e intensidade, no início de 2015 até fechar o ano entre 12,0% e 12,5%. Teremos vários reajustes tarifários “represados”, de energia elétrica, dado o rombo das térmicas e o passivo das distribuidoras, transportes públicos, talvez duas rodadas de reajustes de gasolina e derivados, além do câmbio se depreciando ainda mais, com o início do ciclo de juro em algum momento nos EUA e os choques exógenos recorrentes no setor agrícola. Cabe salientar, também, que a desaceleração das cotações do petróleo e das várias commodities, como minério de ferro e agrícolas (milho, soja, etc), deve jogar a favor da inflação no ano em análise.

Voltando ao imbróglio da presidente Dilma e o mercado, claro desdém (ou falta de urgência) para indicar o novo ministro da Fazenda e as novas medidas de política econômica, com especial atenção para a fiscal, cabem aqui mais algumas considerações.

O mercado deve ser encarado como um “locus”, onde os investidores, gestores, administrados de recursos, entre outros, movimentam milhões em recursos financeiros, nos mais variados ativos e moedas, em sua maioria, de terceiros, de clientes. Suas operações geram poupança, pelos canais de intermediação financeira, no financiamento de projetos, dos mais variados, como infraestrutura, novas plantas industriais, etc. Sendo assim, o mercado não deve ser tratado pejorativamente, com desdém ou algo parecido. São profissionais sérios, em sua maioria, qualificados e para bem operar, e comprar o “produto Brasil”, precisam de transparência e previsibilidade nas ações do governo.

Se este, por problemas outros, não atua nesta direção, sempre na contramão do bom senso, o investidor acaba desorientado, podendo até migrar para outros mercados. Isto acaba por resultar em bolsa de valores volátil, dólar e risco país elevados, etc. O mercado, nesta linha de raciocínio, deve ser encarado como um “fiscalizador” das ações do governo. Se estas são bem feitas e market friendly, extensivas a todos e não a segmentos protegidos, os investidores compram ações, títulos domésticos, caso contrário, migram para outros mercados mais lucrativos. Cabe ressaltar, porém, que sempre haverá “assimetria de informação” entre mercado e governo, mas o papel deste é transmitir confiança e transparência aos agentes econômicos.

Na opinião de Marcos Lisboa, economista do INSPER, neste momento, mais importante do que o novo ministro, é preciso definir logo uma agenda de governo. Para ele, “a baixa confiança é resultado dos problemas e não sua causa. Ela requer um programa de governo que seja bem aceito por todos e não apenas um novo ministro da Fazenda”. Já Fernando Cardim, professor emérito da UFRJ, confessa certa perplexidade com a postura da presidente em indicar quem será o novo ministro da Fazenda. Para ele, “esta pasta não está na mesma situação de outras por uma razão óbvia, Mantega já foi anunciado fora do governo faz tempo”. Não é um remanejamento normal, como em todas as transições de poder, mas uma vacância. Além disto, a pasta da Fazenda não é igual as outras, é muito mais importante e estratégica.

Dilma Rousseff, no entanto, nos seus movimentos recentes, tem se mostrado mais preocupada com a agenda de encontros políticos, pouco se importando com a deterioração econômica, a volatilidade dos mercados e as medidas a serem anunciadas. Os primeiros movimentos do BACEN foram até importantes, mas é no front fiscal que os problemas parecem mais urgentes de solução. Neste contexto, não faz sentido o comportamento da presidente. Devemos salientar que as agências de rating também já estão, nos seus vários comunicados e relatórios, mostrando certo desconforto com a situação fiscal, ainda mais depois dos últimos sinais emitidos pelo governo e os dados de setembro. Nestes, por exemplo, a dívida bruta chegou a 61% do PIB e a líquida a 36%. Se o governo não alterar sua conduta, sua forma de atuação, e continuar adotando um timing próprio e não o da urgência e da responsabilidade, o rebaixamento do rating acabará inevitável e aí o que já ruim tende a piorar ainda mais. Teremos problemas para captar lá fora e nossos custos financeiros acabarão elevados.

Cabe salientar neste caso, que a necessidade de captações e financiamentos externos é essencial para um país que carece de funding para os seus investimentos. Como o governo está no seu limite fiscal e o setor privado parado, com baixa confiança e sem o velho animal spirit keynesiano, a opção pelos recursos externos se torna interessante. Sendo assim, fazer o “dever de casa”, os ajustes que devem ser feitos, se torna uma tarefa urgente. Não fazê-los torna o passivo mais oneroso lá na frente. Em suma, não dá mais para ficar adiando. O tempo urge!

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