Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Tempos modernos

E, mais uma vez, o Uber está sob fogo cruzado. Anteontem à noite a Câmara Municipal de São Paulo aprovou um projeto de lei que proíbe o seu uso, embora uma segunda votação e sanção do prefeito ainda sejam necessárias para que ele se transforme de fato em lei. As galerias estavam tomadas por taxistas, que fecharam a rua em frente ao edifício, e vaiavam qualquer referência positiva à tecnologia; o presidente do sindicato reiterou as ameaças cafajestes que já fez algumas vezes. Acompanhei um pouco da votação. Foi um festival de desinformação, má-fé e canalhice explícita.

Um vereador um pouco menos obscurantista do que os demais até fez um discurso louvando os tempos modernos e reconhecendo as muitas falhas do monopólio dos táxis, mas concluiu votando a favor do projeto, porque, afinal, a categoria dos taxistas é muito sofrida e, além disso, a Uber nunca foi à comissão de transportes da casa e precisa ser castigada por não fazer o jogo da política.

O Uber não faria tanto sucesso se não estivesse suprindo uma demanda longamente reprimida nos transportes públicos

O único que teve a decência de reconhecer que serve aos cidadãos e não aos sindicatos, José Police Neto (PSD), foi voto vencido. Fez um belo discurso contra o corporativismo e a favor da livre concorrência, mas foi um “não” isolado entre os 49 “sim” dos seus colegas.

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Não tenho carro. Ando de metrô, de ônibus e de táxi. A melhor coisa que aconteceu na minha vida em trânsito foi o Uber. Os carros são limpos e confortáveis, os motoristas são gentis e muito mais educados, como um todo, do que os taxistas. Essa talvez seja uma tendência mundial; uma pesquisa realizada pela Uber nos Estados Unidos e divulgada há quatro dias pelo “New York Times” revela que 48% dos motoristas, lá, têm diploma de curso superior, contra 18% dos taxistas.

Obviamente não faço a menor questão de que o motorista que me conduz seja formado em Direito ou Psicologia, mas, quando entro num táxi, aprecio muito que me perguntem se quero que liguem o ar ou desliguem a música. E, se não fosse pedir muito, gostaria também que conhecessem as ruas principais da cidade ou, no pior dos casos, soubessem usar o Waze ou um GPS. Na semana retrasada peguei um taxista que não sabia ir da Lagoa à Presidente Vargas; outro não fazia ideia de onde era a Visconde de Pirajá. O primeiro, menos mal, me confessou de saída a sua ignorância; a do segundo só descobri ao perceber que ia em direção contrária à que devia pegar.

Geralmente me dou bem com taxistas e nem tenho muitas queixas, mas fica difícil defender uma categoria que, cada vez mais, tem elementos tão mal preparados.

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Durante a votação na Câmara Municipal de São Paulo escrevi um post no Facebook. Ato contínuo, a área de comentários dividiu-se entre usuários do Uber, de um lado, e taxistas e simpatizantes, do outro. Algumas críticas feitas aos táxis — sujos, fedorentos, inseguros — são generalizantes e, consequentemente, injustas; mas mesmo os exageros contêm um fundo de verdade em que a categoria deveria prestar mais atenção, caso quisesse conquistar os clientes pela qualidade, e não no grito. O problema é que, quando causas são ganhas no grito, como aconteceu em São Paulo, a qualidade, que dá trabalho e demanda atenção, torna-se dispensável.

Ao mesmo tempo, a crítica mais virulenta que os taxistas dirigem aos motoristas do Uber — a de que não são fiscalizados por ninguém, “alguém” sendo, no caso, um órgão da prefeitura — mostra como a categoria está defasada. Para mim, assim como para milhares de pessoas ao redor do mundo, a única fiscalização confiável é justamente a dos passageiros, e não aquela da prefeitura.

O fato incontestável é que o Uber não faria tanto sucesso, nem seria uma ameaça tão temida nas capitanias hereditárias se não estivesse suprindo uma demanda longamente reprimida nos transportes públicos. É um serviço bom e confiável, em que, para variar, o passageiro é tratado com dignidade. Sua simples existência desafia a acomodação reinante e, só por isso, já merecia ser recebido de braços abertos pelas prefeituras; mas elas, a exemplo dos vereadores de São Paulo, andam esquecidas de que servem ao público, e não às máfias dominantes.

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EasyTaxi e 99Taxi estão dando desconto de 20% a quem pedir carro através dos aplicativos e optar por pagar com cartão. No fim de semana eu tinha uma corrida um pouco mais comprida para fazer. Pensei, pensei, mas optei por chamar um Uber, que sempre prefiro para os trajetos longos. Só que a demanda estava alta, e o preço do carro preto tinha um acréscimo de 50%. Ora, 50% a mais de um lado contra 20% a menos do outro — essa era uma equação simples de resolver. Chamei um amarelinho pelo 99Taxi. E fiquei maravilhada em ver ali, na palma da minha mão, um exemplo tão prático das forças do mercado em ação.

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Zeca Camargo escreveu uma crônica polêmica sobre a morte de Cristiano Araújo. Deu uma opinião interessante, diferente do rame-rame politicamente correto que nos sufoca — e, desde então, vem sendo crucificado nas redes sociais. Que medo deste país burro e polarizado, incapaz de conviver com o contraditório e de debater ideias com um mínimo de civilidade.

Fonte: O Globo, 2/7/2015

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