“Os governos nunca quebram; por causa disso, eles quebram as nações.” (Kennet Arrow)

Estamos vivendo tempos perigosos. O ambiente europeu pode ficar fértil para “aventuras” fascistas novamente. O welfare state irresponsável plantou as sementes do caos. Primeiro, tivemos uma mega bolha de crédito privado, estimulada pelos bancos centrais e governos, que não aceitavam recessões, ajustes necessários para os excessos de antes. Levaram a tal extremo isso, que a bolha estourou e o setor privado teve que reduzir o grau de alavancagem, causando um credit crunch. A única saída para os governos foi assumir o endividamento, expandir ainda mais a base monetária, o estímulo fiscal. Seus balanços ficaram ainda mais vermelhos.

Como os governos já estavam com patamares absurdos de endividamento, déficit fiscal crescente e impostos escorchantes, as contas explodiram, e o grau de endividamento deles foi para níveis jamais vistos. Os credores acusaram o golpe, não mais dispostos a financiar alguns governos por taxas de juros civilizadas. O reflation pode estar chegando ao seu limite. Agora o buraco é mais embaixo. Não estamos falando da quebra de Fannie Mae, AIG ou Citi, mas dos próprios governos dos países ricos. E o governo americano não está livre deste contágio. Como disse Niall Ferguson, os títulos do governo americano são tão “porto seguro” como era Pearl Harbor!

Os “especuladores” são os bodes expiatórios de sempre, alvos dos desesperados, da massa de ignorantes, vítima do sistema que defendeu e agora se esgotou. O maior risco é surgir um clima propício ao retorno do fascismo, de um líder que prometa colocar “ordem” no caos, organizar a massa de vândalos contra os “capitalistas”, resgatar o senso de orgulho agora ferido, e coisas do tipo. Crises estruturais costumam servir como fertilizante para projetos autoritários. A falência da República de Weimar contribuiu para a ascensão do nazismo*. Uma Itália dilacerada preparou o terreno para o fascismo de Mussolini. A Grande Depressão levou o demagogo Roosevelt à Casa Branca, com seu New Deal claramente inspirado nas idéias coletivistas do fascismo. Quando o sistema vigente entra em declínio, espalhando a desordem e o pânico, eis que o oportunista de plantão aparece como “messias salvador”.

A Grécia já está quase em ruínas, com a população tomando as ruas de forma violenta contra as reformas dolorosas e necessárias após a ilusão do welfare state. A crise rapidamente contagia os demais países da região, também com graves problemas nas finanças públicas. A própria existência do euro passa a ser questionada. Na Alemanha, a população se revolta contra a pressão para assumir a conta dos privilégios dos gregos. O clima de segregação aumenta, e o sentimento nacionalista pode, com isso, chegar a níveis preocupantes. A própria idéia de uma moeda comum tinha como um dos objetivos, reduzir as chances de guerras, numa região acostumada a viver desde sempre em ininterruptas batalhas.

Medidas drásticas para enfrentar a realidade precisarão ser tomadas na Europa toda. Os governos perdulários terão que ser reduzidos de forma radical. Como um bêbado após grande euforia por conta de muito álcool, a Europa deve entrar na fase da ressaca necessária para limpar o organismo. Resta saber se tais ajustes serão viáveis politicamente, ou se o Banco Central Europeu vai iludir a população, emitindo descontroladamente papel-moeda. Se esta for a escolha – fugir da realidade dura – então o resultado poderá ser muito pior. O colapso do sistema monetário não pode ser descartado neste caso. E a história não traz conforto para o tipo de efeito que isso pode causar.

Vivemos tempos muito perigosos. Espera-se que o bom senso possa prevalecer na Europa. Mas seu histórico não é dos melhores, a começar pela própria irresponsabilidade que levou a esta situação. Melhor apertar os cintos…

* “Here was the president of the Reichsbank, whose principal obligation was supposed be the preservation of the value of the currency, proudly proclaiming to a group of parliamentarians that he now had the capacity to expand the money supply by over 60 percent in a single day and flood the country with even more paper. For many people, it was just one more sign German finance had entered an Alice-in-Wonderland phantasmagoria”. (Lords of Finance, Liaquat Ahamed)

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