Experimentamos outra seqüência de dias turbulentos nos mercados acionários globais. “Cascatas de vendas inundam os pregões, derrubando os mercados, um após o outro, causando grandes perdas em pequenas janelas de tempo”, adverte o herege das finanças Benoit Mandelbrot, em “O mau comportamento dos mercados” (2004). “A economia global já é um mecanismo bastante complexo. Adicione então a psicologia das multidões agindo ao sopro de expectativas extremamente voláteis sobre o que possa ou não ocorrer”, alerta.

Quando o enredo de um filme captura a imaginação do público e garante audiência para futuras variações sobre o tema, surge uma série de episódios, como “Harry Potter V: a ordem da Fênix”. Pois bem, o mesmo ocorre nos mercados acionários quando um tema captura a psicologia das multidões de investidores.

Assistimos agora ao terceiro episódio de um tema recorrente: está em curso uma importante mudança no ambiente econômico mundial. As torneiras da liquidez global estão sendo fechadas pelos mais importantes bancos centrais. Após anos de juros baixos e liquidez frouxa, há um esforço sincronizado de esfriamento da economia global.

O primeiro episódio da série ocorreu em maio-junho do ano passado: “Desaquecimento global I: prossegue a alta dos juros do Federal Reserve, apesar dos efeitos devastadores sobre a construção residencial nos Estados Unidos”. As bolsas entraram em zona de turbulência. Mas, quando o banco central americano acenou com a pausa iminente da alta dos juros, as bolsas dispararam. Romperam a faixa de flutuação em que estavam aprisionadas para exibir desempenho exuberante até o início de 2007.

Em janeiro e fevereiro deste ano, há o episódio seguinte: “Desaquecimento global II: o FED não baixará os juros tão cedo, apesar do aumento da inadimplência no pagamento das hipotecas de alto risco”. Os mercados entraram novamente em zona de turbulência, delineando-se nova faixa de flutuação de preços de enorme amplitude. Mas o recuo da inflação e a perspectiva de reaceleração econômica no segundo semestre nutriram as expectativas de uma iminente “aterrissagem suave”. Nova disparada das bolsas, com recordes históricos de alta em todo o planeta.

Até há pouco, os danos causados pelos juros elevados estavam restritos a compartimentos estanques – a construção residencial e as hipotecas de alto risco -, sem transbordar para os demais setores da economia. Mas, no atual episódio, “Desaquecimento global III: a ameaça de contaminação”, ainda na versão americana, há registros de que o setor financeiro já foi atingido. O grande receio é de que se contamine a massa de consumidores, responsável por dois terços da demanda nos EUA.

E o FED estaria de mãos atadas. Quando olha para a contaminação dos mercados de crédito e para o estouro da bolha imobiliária, gostaria de baixar os juros. Mas a reaceleração da economia, o preço do petróleo em alta, a queda do dólar e as pressões sobre o mercado de trabalho e a capacidade instalada exigem juros elevados. Esse é o grande enigma para o desfecho do terceiro episódio.

(Publicado em O Globo em 30 de julho de 2007)

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