Se não conhecesse a figura, poderia ficar espantado com a entrevista do ministro Guido Mantega (Fazenda) ao “Financial Times” na última sexta-feira. À parte a indisfarçável ironia (britânica) do jornal acerca das reclamações do ministro sobre protecionismo por parte de países desenvolvidos enquanto se gaba (como só ele sabe fazer) da pouca dependência do Brasil com relação a esses mercados, é difícil dar bases sólidas às suas críticas à terceira rodada de afrouxamento monetário nos EUA (QE3).

Segundo o pensamento ministerial, se me permitem o oximoro, o fim último do QE3 é desvalorizar o dólar para elevar as exportações (líquidas das importações) e acelerar o crescimento da economia americana às expensas da economia global. Faltou, como sempre, checar as presunções ministeriais contra os dados econômicos.

O ministro parece não saber que a economia americana obtém pouca tração do comércio internacional. Exportações em 2011 representavam modestos 13% do PIB dos EUA, enquanto importações atingiram o equivalente a 16% do PIB, valores bastante próximos aos observados no Brasil: respectivamente, 12% e 13% do PIB.

Lá, como aqui, o principal motor de expansão da demanda é o mercado interno, em particular o consumo das famílias, que representa mais de 70% do PIB.

Com efeito, entre 2009 (o fundo do poço) e 2011 o PIB americano cresceu, já deduzida a inflação, algo como US$ 540 bilhões. O consumo das famílias representou quase três quartos desse crescimento, pouco menos de US$ 400 bilhões, desempenho que, se não é brilhante, tem certamente ajudado.

O investimento não residencial também contribuiu, adicionando cerca de US$ 120 bilhões ao PIB. A ausência notável é o investimento residencial, no qual o estouro da bolha imobiliária produziu maior estrago: queda de US$ 17 bilhões, em contraste com uma expansão média de US$ 32 bilhões por ano no período pré-crise.

Os crescentes imodestos interesses protecionistas transparecem a cada passo da nova política econômica

À luz desses números, analistas mais bem informados (ou que, ao menos, estejam dispostos a buscar as informações) concluiriam que o objetivo dessa nova rodada de expansão monetária deveria ser precisamente reativar o investimento residencial. Não por acaso, aliás, no anúncio do QE3 o Fed (Federal Reserve) deixou claro que a expansão monetária adicional (US$ 40 bilhões por mês) será integralmente destinada à compra de títulos lastreados em hipotecas, de modo a reduzir as taxas de juros desses empréstimos e assim estimular as compras de imóveis.

Adicionalmente o Fed, ao contrário de tentativas anteriores, não se comprometeu com um valor para o programa; pelo contrário, condicionou sua continuidade à queda mais expressiva do desemprego. Enquanto este, hoje na casa de 8%, não se reduzir a níveis compatíveis com estabilidade de preços (em torno de 5% a 5,5%), a expansão não cessará. Por todos os ângulos que se observe, trata-se de política voltada primordialmente ao mercado interno.

Apesar disso note-se que o QE3, se exitoso, irá beneficiar o Brasil mais do que a presumida desvalorização do dólar poderia prejudicá-lo. A despeito da flutuação do dólar, importações americanas seguem de perto a demanda interna, que se encontrava no ano passado algo como 14% abaixo do valor que teria prevalecido sobre a tendência pré-crise.

A recuperação do mercado interno poderia acrescentar, portanto, cerca de US$ 2,5 bilhões por ano às exportações brasileiras para os EUA, que em 2011 foram de US$ 25 bilhões. Nesse aspecto, a reclamação sobre a política expansionista dos BCs mundiais merece medalha de ouro na categoria “tiro ao próprio pé”.

Contudo, se isso é verdade, por que o tiro ao pé? Em parte, acredito, porque a obsessão com a taxa de câmbio os leva a imaginar que os demais sofram da mesma compulsão, sem se dar ao trabalho de olhar os números. Mas a razão principal, creio, são os crescentemente imodestos interesses protecionistas, que transparecem a cada passo da “nova política econômica”.

Fonte: Folha de S. Paulo, 27/09/2012

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